O prenúncio do indizível

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    Elisabeth Moss in ‘The Invisible Man (2020) - O filme retrata a descredibilização da mulher vítima de violência sexual ou doméstica (https://medium.com/@solomonbenjamin2/how-the-invisible-man-confronts-metoo-by-discarding-it-4ba3d2d1311f).

    Aquele momento em que me confronto com a decisão impossível. Cedo ou resisto. Se cedo, perco-me para sempre. Torno-me cúmplice silenciosa da minha própria violação. Se resisto, desperto o monstro que habita no homem. Esse monstro do qual nunca me falaram, mas cuja existência é tão certa como a morte. E, tal como a morte, uma presença que não existe realmente, invisível, indizível, incompreensível. Se resisto, provoco o monstro. Serei então forçada a encarar o monstro, a olhá-lo nos olhos, frente a frente. A reconhecer, resignada, a sua existência real. Ainda assim, mesmo quando encarado, tão incompreensível e indizível como imagino que será a morte, um dia.

    Quando uma criança ou uma mulher dizem: fui violada. A incredulidade. A pergunta inevitável. Disseste que não? Resististe? A resposta desesperada. Não, não, não, não.

    É talvez mais fácil compreender quando é uma criança a vítima complacente de uma violação. Complacência aparente. Por dentro, o não arde em fúria. O grito autosilenciado da resistência queima e destrói, irrealizado, todos os lugares felizes que existiam naquela criança. Raramente sobra alguma coisa para reconstruir. Sabemos que é muito difícil para uma criança, que foi educada – de acordo com os moldes tradicionais da educação patriarcal – para uma obediência acrítica aos adultos, dizer não. Foi educada, desde a obrigação do beijinho ao controlo parental, externo, do seu corpo, de que há algo de si que é coisa. Que está fora do seu controlo. Que se deve sujeitar, submeter. Muito difícil para esta criança dizer não, resistir, mesmo perante um adulto desconhecido. Impossível, quando esse adulto é o seu pai, o seu avô, o seu irmão, tio, padrinho, professor, mãe ou irmã, também.

    Mas, e quando a vítima é uma mulher adulta, e não resiste? Não grita, não esperneia, não morde, não tenta fugir! Seremos capazes de compreender porque fica este não silenciado? Dificilmente. Nasce a incredulidade. Nasce e domina a nossa visão deste assunto. Esta dolorosa questão foi o que me acompanhou enquanto via o documentário da Netflix “Jeffrey Epstein: Poder e Perversão”. Como é possível que tantas adolescentes e mulheres adultas tenham cedido sem resistência? Por vezes, durante anos. Como e porquê?

    Posso dizer-vos que a minha incredulidade pouco durou. Através do documentário, confrontada com os testemunhos das vítimas, fui relembrada do momento impossível que descrevi no início deste texto. Ser mulher traz consigo a presença invisível e constante deste medo escondido. O medo do indizível. Algures num recanto escondido do nosso inconsciente vive a consciência de que há um monstro possível no potencial de cada homem.

    É o prenúncio do indizível que nos paralisa. Nunca fui vítima de uma agressão sexual. Mas já vivi este momento de dúvida. É o momento em que espreitamos de longe para o abismo e reconhecemos a sua existência. Sim, o de Nietzsche (1), o da mulher-pássaro, doce e encantadora, desde que se mantenha presa, sobre a propriedade indiscutível do Homem. É aquele momento em que estamos sozinhas com um homem, num contexto sexual, e pensamos: e seu eu, de repente, disser não? Não um “não”, mas um não. Será o meu não aceite, ou lido como um “não” e logo rejeitado? Se disser não, como irá reagir este homem, aqui, à minha frente, nú, ereto, preparado? Se eu der mais um passo na direção do não, será que caio no abismo? Se eu disser não e o meu não morrer aqui, assim que sai dos meus lábios, poderei alguma vez voltar a ser livre? E se eu insistir e resistir, vou ter de me confrontar com o monstro? Vou sentir as suas garras nos meus braços, e a força de ser forçada a silenciar o meu não?

    Não quero olhar para o abismo. Não quero saber se o monstro existe ou se é delírio da minha imaginação-herança genética e cultural. Prefiro conter o passo. Calar o não imaginado. O terror de descobrir se o monstro é real é maior do que a tentação de dizer não. É um terror que paralisa. Que faz morrer a resistência antes de esta ser mais do que um pensamento fugaz. É o terror do prenúncio do indizível. Se chegasse a esse ponto, preferiria ser cúmplice resignada da minha própria violação? Ou resistiria, provocaria o monstro para que se expusesse, fazendo-se real? Não sei.

    Sou afortunada, dentro do possível. Estes terrores viveram apenas no meu pensamento. Porque o meu pensamento não tem limites. Vai lá onde a maioria das pessoas nem se atreve. Pela empatia, pela curiosidade. Fado e fortuna, nos dias bons. E se? Nunca confrontei nenhum dos meus companheiros. Gosto de pensar que neles não viveu nunca o monstro indizível. Verdade ou ilusão? Não sei. Consigo viver com a dúvida? Não sei.

    Falharia no meu fortúnio se calasse o que sei. Tenho a obrigação de o tentar descrever, em nome daquelas (e daqueles) que, no terror do prenúncio do indizível, calaram o não e contiveram a resistência. Não têm razões para desconfiar de mim. Nunca acusei ninguém de violação ou abuso sexual. Não prevejo que isso vá acontecer como consequência do meu passado. Espero que nunca seja consequência do meu futuro. Falo apenas por empatia, porque reconheci a vivência do prenúncio do indizível, o terror que provoca, o potencial paralisante que nele vive. Que vive dentro de cada criança e mulher.

    Porque sei que muitas crianças e mulheres viveram este momento, foram confrontadas com a decisão impossível e, no terror do prenúncio do indizível, escolheram não se confrontar com o monstro. Escolheram não ficar a saber se aquele homem as iria agarrar à força. Se lhes iria bater, pontapear, estrangular. Escolheram não ficar a saber até onde iria a raiva do monstro.  Escolheram morrer por dentro. Em silêncio. E assim, aos vossos olhos, foram cúmplices da sua própria violação. Julgadas e descredibilizadas. Porque é que não disseram que não? Porque é que não resistiram? A resposta é tão simples, como é complexa, como este texto. Porque sabiam, em algum recanto escondido do inconsciente, da sua memória genético-cultural, que poderiam estar a acordar o monstro. Que seria inútil. Que iria provocar uma escalada de violência. Assim, calando o não, contendo a resistência – pensaram, iludidas, naquele momento –, poderiam fingir que o não nunca tinha nascido. Poderiam fingir que não era uma violação. Ou um abuso sexual, se a palavra vos incomoda.

    Mas foi.

    E caso se perguntem: na ausência de um não expresso, de uma resistência, como pode o homem saber que está a violar?

    Pergunto-vos: acham que Jeffrey Epstein não sabia que estava a violar ou a abusar daquelas meninas-mulheres? Acham que Jeffrey Epstein não estava plenamente consciente do desequilíbrio de poder, do potencial de intimidação e violência que estava a usar contra aquelas mulheres?

    Não tenho dúvidas. Não preciso do não (expresso). Reconheço o prenuncio do indizível. Quero reconhecê-lo aqui. E dizê-lo. Dizê-lo as vezes que forem necessárias para que deixe de ser indizível.  Para que paremos de perguntar, com incredulidade e sarcasmo, “Porque não disseste que não? Porque não resististe?”. E passemos a fazer as mesmas perguntas, com normalidade e empatia, sabendo que há respostas possíveis e reais: porque tive medo; porque tive vergonha; porque paralisei. Porque fui tomada pelo terror do prenúncio do indizível.

     

    (1) “237-bis: As mulheres foram tratadas pelos homens, até agora, como pássaros que tivessem caído de alguma árvore de sua vizinhança, como algo delicado, fácil de desgastar-se, de selvagem, extravagante, doce, encantador, mas também como algo que precisa ser preso para que não alce voo.”, Além Do Bem E Do Mal Ou Prelúdio De Uma Filosofia Do Futuro, Hemus Livraria, Distribuidora e Editora S.A, 2001, p. 162.