NÃO É MENINA. É DOUTORA, SE FAZ FAVOR

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Esta frase parece presunçosa. Arrogante. Sem nexo. Desfasada da realidade. Contudo, espelha bem a necessidade que as mulheres têm de se impor num mundo machista.

Escrevo este texto protegida pelo anonimato devido à minha profissão. Sou advogada, e desde nova que me apaixonei pela justiça. Luto pela utopia de um mundo onde o Direito e a Justiça se encontram. Todavia, e no contexto laboral, raras foram as vezes em que os homens mais velhos me trataram como par. Enquanto os meus colegas, alguns mais novos do que eu, eram tratados com o mínimo de respeito e a sua opinião era escutada e apreciada (mesmo que não acolhida), eu senti-me inúmeras vezes discriminada. Em serviços públicos, no próprio Tribunal ou reunida com a parte contrária, ouvia demasiadas vezes frases machistas como: “A menina não sabe do que fala”, “a menina é advogada mas ainda tem muito que aprender, devia arranjar um colega que a ajudasse nestas coisas complicadas”, “a menina não entende esta vida de negócios”, “a menina está num meio que pertence aos homens”.  Acontece que a maior parte dos homens que proferiram tais palavras, fizeram-no em tom de gozo, com superioridade, a tentar rebaixar-me, e sem qualquer conhecimento de causa. Sem qualquer conhecimento sobre mim, e muitas vezes perante os meus clientes, numa tentativa frustrada de tentar descredibilizar o meu trabalho em função do meu género.  Alguns proferiram tais frases após eu ter demonstrado que, afinal, eles é que estavam equivocados. Verifiquei que tratavam os meus colegas homens sempre seguindo a conduta deontológica, enquanto desprezavam o meu trabalho e o das minhas colegas (mulheres), como se estivéssemos a ocupar um lugar que não nos pertence.

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