A Teologia feminista enquanto Teologia Crítica

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    Como é que a problemática do feminismo assenta na perspetiva histórica religiosa? E que desafios coloca à sua pós-modernidade? Na pós-modernidade, a teologia feminista pode afirmar que as mulheres e os homens são criados por Deus como iguais em liberdade e capacidade de intervenção, ou seja, não é Deus que coloca entraves às mulheres, por exemplo, no seu direito ao acesso à política ou ao sacerdócio.

    A teologia feminista pretende não só abrir caminhos para que sociedade assente no princípio de igualdade mas que em Cristo, o amor seja vivido pelas pessoas na qualidade única de amor, abolindo quiçá a própria linguagem, ela própria que se apresenta como discriminatória e exclui à partida outros géneros de fronteira como é o caso de pessoas que não se identificam com o binarismo de género.

    Numa concepção geral da teologia feminista, esta inscreve-se como uma proposta crítica; dando o exemplo de uma pessoa homossexual que se pode considerar aceite por Deus e ver-se simultaneamente a par com uma interpretação teológica normativa de condenação da sua orientação sexual… os perigos destas interpretações teológicas e os seus efeitos sobre a psicologia humana podem implicar um afastamento do crente daquilo que lhe é ensinado como dogma e consequentemente causar uma repressão violenta da sua própria perspectiva.

    A resolução desta tensão, passa pela mudança de percepção da pessoa sem que esta se violente e autorreprima, ou seja, entenda sobretudo que o texto bíblico foi escrito sob inspiração de Deus mas com filtragem humana; tudo aquilo que se apresenta como discriminatório não corresponde necessariamente à vontade de Deus uma vez que o conjunto de livros que compõe a bíblia deve ser interpretado no seu contexto e à luz das suas limitações.

    Estamos perante uma teologia crítica que procura soluções e alternativas às interpretações vigentes que geram discriminação e exclusão e que são motivo de perda de fé e afastamento de inúmeros grupos marginalizados pela Igreja Católica, nomeadamente a comunidade LGBTQIA+.

    Já em relação às comunidades crentes normativas, somos levados a pensar como é que estas lidam com a consciente existência destes grupos e evoluem com a consequente troca de experiências e vivências. Positiva ou negativamente?

    A postura tomada pela teologia feminista, tem por base um enfrentamento disruptivo para com a teologia dominante e preconiza a alteração dos paradigmas teológicos centrados no homem e causadores de marginalização e exclusão, contribuindo fundamentalmente tanto na representatividade da mulher na História como num reivindicar da sua participação dentro do cristianismo patriarcal.

    A visão feminista da teologia implica que as relações estabelecidas entre homens e mulheres sejam livres de submissão e domínio por ambas as partes e se o feminismo se nos apresenta como indissociável da história de género, esta por sua vez só pode ser entendida à luz da história da sexualidade.

    Na segunda metade do século XX, a história da sexualidade surgiu como uma importante área da pesquisa histórica e passou a ser encarada como sujeita a mudanças históricas tornando-a numa temática susceptível a intensos debates teóricos e académicos que a definem muitas vezes como um motor de mudança de panoramas.

    Já o feminismo como movimento filosófico, social e político, define-se pela luta da igualdade de género, representatividade e consequentemente pela participação da mulher na sociedade dentro de uma cultura alicerçada numa sociedade patriarcal.

    Contudo, dizer que mulher não teve poder na História é ignorar a própria – dentro da hierarquia masculina existiram espaços de confinamento e silêncio onde a atividade intelectual da mulher era intensa e fugia à estrutura do matrimónio bem como uma rica historiografia feminista sobre conventos de freiras como lugares de “poder feminino”; neles, as mulheres, embora submetidas a restrições severas, podiam escapar ao fardo da maternidade e das tarefas domésticas, ficando libertas para a devoção espiritual, actividades intelectuais e artísticas.

    Deus revelou-se tanto às mulheres como aos homens; num exercício constante de memória, é remontando na atualidade às origens cristãs primitivas de inclusão que a problemática do feminismo teológico adquire bases sólidas e uma estrutura que de certa forma pode vir a devolver às mulheres aquilo que lhes foi recusado durante séculos através do silenciamento.

    Existem registos de comunidades cristãs lideradas por mulheres; Maria Madalena foi a primeira testemunha de Cristo ressuscitado apontada como fundadora do Cristianismo… A lista é longa e à luz dos dias de hoje, os contributos científicos e as reflexões espirituais de mulheres extraordinárias que não obtiveram a merecida visibilidade e desempenharam ao longo dos séculos os papéis mais significativos da História, são inegáveis.

    É assim crucial para o futuro da Igreja que existam cada vez mais representações do feminino e que se lhes atribua o devido valor através de uma nova hermenêutica teológica que se adeque ao século e procure responder com respeito e práticas de inclusão, aos grupos marginalizados pelo catolicismo.

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