A mulher ideal no Estado Novo

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    Quando falamos de igualdade de género ou da luta feminista para esta venha a ser uma realidade plena em Portugal, partimos de um pressuposto fundamental: o de que vivemos, ainda, numa sociedade culturalmente machista. É porque partimos, ainda, de um pressuposto de desigualdade – na nossa cultura, na nossa educação, na nossa sociedade – que a igualdade de género ainda precisa de “luta” (felizmente pacífica, simbólica, através da educação, do debate, da mudança de mentalidades). Se as nossas leis já não são, manifestamente, machistas, o mesmo não podemos dizer de muitas e variadas instâncias e instituições sociais. Porque, como sabemos, é mais fácil, e rápido, mudar a lei. Difícil, e lento, é mudar hábitos, tradições, culturas, mentalidades.

    Este pressuposto (de aculturação machista) não é mera opinião. Não é uma ideia. Nem é, sequer, uma mera perceção. Eu posso até nunca o ter sentido de modo consciente. É um facto histórico partilhado pela esmagadora maioria das sociedades atuais. No caso português, este pressuposto histórico central é melhor representado pela propaganda do Estado Novo (1933-1975).

    Por isso, neste dia 25 de Abril, optámos por recordar a força da propaganda do Estado Novo na área da família. Sabemos que a trilogia da educação nacional assentava na fórmula “Deus, Pátria e Família”, e de certeza que já vimos este cartaz algures (nem que seja nas aulas de história).

    Mas, se calhar, não temos consciência de quão vasta e profunda era a propaganda machista. De como e em cada conto, história, notícia, havia uma mensagem prevalecente: o lugar da mulher é em casa, na cozinha, a tratar do lar e dos filhos, submissa, complementando e ajudando o homem. O principal veículo desta educação era a mocidade portuguesa e, no caso das mulheres, a revista “Menina e Moça” (podem encontrar imagens representativas aqui).

    Vejam, por exemplo, esta mensagem, nada subliminar, da Revista Menina e Moça, n.º 9, de 1948:

    Recentemente, em Portugal, houve vários protestos contra um programa que estereotipava as relações entre homens e mulheres, colocando homens-bebés com as suas mães, à procura da “mulher ideal”. Conseguem ver as semelhanças com este artigo da Menina e Moça de 1948 (o artigo completo, aqui)?

    É assim tão estranho que haja homens, e suas mães, que queiram, para si (e para os seus filhos) uma mulher submissa, boa dona de casa? As mães daqueles rapazes cresceram (algumas) a ler estas revistas. Foram assim educadas pelos seus pais. Educaram assim os seus filhos. É um círculo vicioso, educacional, cultural, que vai mantendo instâncias e tradições machistas de profunda injustiça e desigualdade. Que trazem grande sofrimento, para mulheres e homens. Que geram muita violência. Que estão na base, também, da violência doméstica (e suas vítimas fatais). É neste contexto, tentando desconstruir e ajudar a mudar estas mentalidades, que a Capazes vai renovando a sua “luta”, todos os dias.

     

    E ainda assim, ainda assim, como podem ver pela imagem de capa da edição da Menina e Moça, n.º 9, de janeiro de 1948, parece que era mais normal, nesta altura, uma menina brincar com uma bola do que é hoje. É que hoje, se formos a uma loja de brinquedos ou a um supermercado, para comprar uma bola, temos de ir à secção dos rapazes. Já em 1948, parece que uma bola era um brinquedo tão ideal para todos os rapazes como para todas as raparigas…

     

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    Capazes é uma Associação Feminista que tem como objectivo promover a igualdade de género.