“O MEU AMANTE DE DOMINGO” por Sara Rodi

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(para ler ao som de “I’m not the only one”, de Sam Smith)

“Uma mulher está decidida a matar um homem, entre a sua casa no Alentejo e as idas a Lisboa, ao domingo”, espreitei na contracapa. Na capa, cor de sangue, uma cowgirl armada com uma espingarda de cano alto. Uma mulher sem rosto, a sugerir que podia ser cada uma de nós. Eu.

Eu??? O meu filho mais velho descreveu-me há dias como “pacifista e meio vegan”, rendida à paz dos homens e à proteína vegetal. O que me faria pensar em matar alguém? Sobrevivência? Desespero? Vingança?

Um jorro de possibilidades abateu-se de repente sobre mim. Em múltiplos contextos e circunstâncias, quem era eu para afirmar que não mataria? Que, pelo menos, não pensaria friamente em matar? Bonito! Ainda não tinha começado a ler o livro e já me sentia uma assassina em potência…

Li-o depois num trago, sentindo na pele essa mulher de 50 anos que deseja vingar-se de um “caubói” (assim lhe chama a autora) de 30 que tinha sido capaz de a destruir (terão de ler para saber como!). Alguém que nunca pôde ser mãe, deixou de ser esposa, e que tem os seus amantes de domingo para dar cabo da maldita solidão. Alguém a quem só apetece dizer palavrões e chamar as coisas pelos nomes, porque está fartinha das palavras tão bonitas mas tão ocas deste mundo. Alguém que sabe que a literatura é a cópia da vida, ou vice-versa. Que está tudo escrito, sim, o que se viveu e o que há para viver, apenas esculpido sempre de forma diferente.

Hoje, sou quem sou. Ontem, fui o que fui. Amanhã, não posso dizer o que serei. Contenho em mim a possibilidade de todas as coisas e isso é o que torna o desafio da vida tão transformador. Um desafio que nos serve de bandeja um determinado contexto, um corpo vivo, qualidades e defeitos, e depois nos desafia a toda a hora a tentarmos fazer algo de bom com tudo isso. Como se nascêssemos com uma caixinha de legos na mão. Cada um com as suas peças, desafiado a construir algo que lhe faça sentido. Sendo que estão sempre a aparecer novas peças e outras são-nos roubadas de repente para que aprendamos a reinventar-nos com o que sobra.

E nós, mulheres, somos peritas em querer fazer tudo com o máximo de peças que pudermos… Tantas vezes super-mulheres no limite das nossas forças, frustradas porque queríamos ainda mais e melhor. Às vezes, por isso mesmo, capazes de matar alguém (não literalmente, vá. Literariamente basta) quando o esforço esbarra com a incompreensão, a falta de apoio, a ausência de amor, a violência. Atiramos a nossa caixa ao ar e destruímos tudo aquilo que construímos até aí. Gritamos e esperneamos, mas felizmente a nossa força destrutiva é equilibrada pela nossa capacidade de começar do zero. De acreditar que daquela vez vai correr bem, vai sair algo melhor… E acreditar as vezes que forem necessárias.

“O meu amante de Domingo”, da Alexandra Lucas Coelho, é o grito desesperado (tantas vezes divertido, ou não fossem a comédia e a tragédia dois lados da mesma moeda) de uma mulher no limite das suas forças. Naquele limite em que a fronteira entre o bom e o mau se torna ténue e depende de múltiplas variantes. O livro certo para servir de primeira sugestão a todas as Marias Capazes de gritar também e seguir em frente. De resistir. De teimar. De lutar. E continuar a tentar dar sentido a um amontoado de peças, por mais que à sua frente exista o caos.

Força, “Maria Capaz”! Em última instância, seremos sempre Capazes de tudo aquilo que quisermos…

por Sara Rodi

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