Não, não estamos tod@s a viver a mesma quarentena!

1295

Continuando a falar de quarentena e de lições – aprendidas ou a aprender – há uma que me parece urgente: a da solidariedade universal. É a que nos ajuda, através de exercícios de empatia e capacidade para ouvir e ver o outro, a relativizar a nossa situação face à realidade global de quem se encontra, aparentemente, no mesmo infortúnio. Ou seja, a compreender a lição essencial que está na base da ideia de interseccionalidade, uma das lutas mais caras do feminismo moderno.

Todas as mulheres são, potencialmente, vítimas de machismo. Esta premissa, válida, pode gerar uma falsa perceção de que todas as mulheres são igualmente vítimas de machismo. Trata-se de uma falsa perceção, pois o machismo não atua de uma forma puramente matemática ou neutra. É operado por pessoas (homens e mulheres), pelo que depende do fator humano, com toda a sua imprevisibilidade e idiossincrasias. Algumas mulheres encontram-se mais expostas ao machismo, consoante o local onde nasçam, o meio sociocultural, as condições económicas que tenham ou venham a obter, o tipo de profissão que venham a exercer, etc.

Por outro lado, sabemos que o machismo alia-se a outro tipo de preconceitos e fontes de ódio e discriminação: xenofobia, racismo, homofobia. Portanto, uma mulher LGBTI, imigrante ou racializada, ficará então mais exposta à discriminação do que uma mulher branca. Mas não podemos fazer contas simples. A sociedade é complexa e a discriminação decorre de múltiplos fatores. Por exemplo, uma mulher racializada que seja cidadã e tenha um bom estatuto socioeconómico (uma boa profissão ou boa situação de independência financeira) corre, em princípio, menos risco de discriminação machista do que uma mulher branca, cidadã, pobre e economicamente dependente de um homem. Uma mulher imigrante branca corre menos risco de que uma imigrante racializada, mas se qualquer uma delas tiver segurança económica e autonomia, avança uns degraus na escala da imunidade à discriminação.

E se pensarmos de uma forma ainda mais ampla, se formos além destes fatores de desigualdade mais tradicionais que têm origem em características pessoais individuais (machismo, homofobia, racismo, xenofobia), a situação torna-se exponencialmente mais complexa (e delicada). Se introduzirmos a pobreza, os consumos, o historial de maus tratos e violência na família, as incapacidades para o trabalho, a saúde mental, o classismo social, por exemplo, compreendemos que navegamos num barco muito desigual, há centenas de anos, ao sabor de marés de injustiça social. Um barco suportado em fatores históricos de desprezo intersocial e discriminação injustos, que nos prejudicam globalmente e geram enorme sofrimento todos os dias. Um homem branco, cidadão, com historial de maus tratos na família e baixa escolaridade, corre muito maior risco de discriminação, violência ou injustiça social do que uma mulher branca, cidadã, com alta escolaridade e autonomia económica. Esta mulher terá sempre um maior risco de ser vítima do machismo, mas o risco de ser vítima de violência daquele homem é superior. Em contrapartida, o risco de que aquele homem seja ou venha a ser agressor é também elevado. Porque a violência é (em parte) gerada por ciclos de abuso e vitimização.

A situação fica mais delicada também porque quando alguém se queixa, justificadamente, de discriminação ou desigualdade, há (quase) sempre alguém que está um degrau abaixo na escada da injustiça social e que considera ter maiores razões de queixa. Por exemplo, quando uma mulher branca de classe média com autonomia financeira se queixa de machismo, a mulher racializada de classe média com autonomia financeira sente que tem maiores razões de queixa (e tem), e mesmo que esta se queixe, a mulher branca de classe baixa dependente de um marido agressor, sentirá o mesmo (com razão). Paralelamente, quando uma mulher branca de classe média com autonomia financeira se queixa de discriminação machista, o homem branco com historial de mais tratos na família e baixa escolaridade ressente-se, pois já enfrentou desafios e obstáculos mais severos ao longo da vida (claro, esta mulher pode ter tido o mesmo historial, mas naquele momento está a falar de outra coisa).

Na grande cacofonia das injustiças sociais, cada um/a de nós se sente mais injustiçado e mais legitimad@ para reclamar, o que tem um efeito muito perverso: deixamos de ouvir as queixas dos/as outros/as, fechamo-nos no nosso próprio infortúnio, ficamos mais egoístas e menos empátic@s. Cada um/a de nós que se encontra num certo degrau da escada da injustiça social tem a tendência para se sentir ofendido/a com as queixas de quem está mais acima na escada (afinal, têm bem mais do que nós!), e, simultaneamente, vai desprezar as queixas de quem se encontra mais abaixo (afinal, resolver estes problemas é tarefa do Estado e da Segurança Social, certo? Não há nada que eu possa fazer…). Só há um pequeno grupo de pessoas a quem interessa este estado de coisas – isolamento social de grupo, falta de empatia e solidariedade social, individualismo egoísta – e é o pequeno grupo de pessoas a quem este estado de coisas interessa há milénios. É preciso dizer?

Quando alguém fala em igualdade de oportunidades como se fosse um feitiço mágico que nos coloca tod@s numa posição ideal de igualdade à nascença, está a falar de algo que nunca existiu. Parte da nossa sorte na vida está logo pré-determinada à nascença. Não pela vontade de Deus, mas pela imperfeição da humanidade. Se nascermos numa família disfuncional com consumos, pobreza e exclusão social – algo que nenhuma/a de nós pode controlar – e formos para a escola subnutridos, sem roupa quente e sem livros, a nossas possibilidades de sucesso académico reduzem-se drasticamente quando comparadas com quem nasce numa família funcional de classe média/alta que pode pagar um bom colégio privado para os seus filhos. Não é uma opinião, é ciência. É por tudo isto que uma das obrigações fundamentais do Estado é a de corrigir estes fatores de injustiça e repor a igualdade de oportunidades (através de medidas de intervenção na sociedade como a escola pública, a saúde pública, rendimentos mínimos, subsídios de desemprego, etc.).

Obviamente, também não estamos tod@s a viver a mesma quarentena. Há quem tenha mantido o seu trabalho e esteja em teletrabalho sem perda de rendimento, há quem esteja em lay-off (com perdas que podem chegar aos 50% de salário, quando os salários incluíam gratificações, comissões, prémios), há quem tenha perdido o emprego/clientes/negócio. Há quem tenha mantido o trabalho, mas tenha de sair de casa com medo todos os dias. Há quem tenha de se expor ao risco de contágio, há quem tenha mesmo ficado doente por ter de trabalhar. Há quem esteja 15 dias seguidos num lar a manter os utentes confortáveis e seguros, sem ver a família, sem descanso ou folgas, e a receber 600 euros por mês. Há quem acorde às 4 da manhã e passe horas em transportes públicos para começar a fazer limpezas em hospitais às 6 da manhã; há quem esteja a fazer a limpeza de enfermarias Covid19, para que o mundo, a sociedade, o sistema, os hospitais, a normalidade possível, continuem a funcionar. E estas mulheres, que asseguram invisíveis a nossa normalidade, na maioria racializadas e pobres, por vezes nem contratos de trabalho têm e muitas vezes recebem menos do que o mínimo de sobrevivência.

Há quem esteja a viver a quarentena numa vivenda com terraço, piscina, amplos espaços e privacidade para a toda a família. Há quem esteja a viver a quarentena com 4 ou 5 pessoas enfiadas num apartamento T2 com pequenas janelas. Há até quem não tenha casa onde viver a quarentena…

Há quem tenha saqueado os supermercados no início de março, porque tinha rendimento disponível para comprar 50 latas de atum e 30 pacotes de papel higiénico, e grandes frigoríficos para encher de carne, assim esgotando num dia o que deveria servir centenas de pessoas. E há quem tenha 25 euros por semana para comprar o essencial de comida para a família e tenha encontrado prateleiras e montras vazias. Há quem tenha as despensas a abarrotar de enlatados, e há quem esteja a passar fome. Há quem tenha comprado máscaras às dúzias e há quem esteja sem dinheiro para comprar a medicação essencial que precisa para sobreviver.

Há quem esteja sozinho/a e feliz, e há quem esteja a partilhar a quarentena com agressores/as domésticos. Há quem esteja longe dos filhos ou familiares próximos, a morrer de saudades, e há quem esteja com 5 crianças em casa em telescola, a entrar em esgotamento nervoso.

Não, não estamos tod@s a viver a mesma quarentena. E não é porque tenhamos feito algo de errado. Não é por nossa culpa. É porque vivemos, todos os dias, antes, durante e depois da quarentena, numa sociedade profundamente desigual e injusta. A quarentena limitou-se – para quem esteve atent@ – a desligar o matrix, a expor esta realidade. Realidade que a maioria das pessoas privilegiadas nega diariamente, usando todos os seus esforços, fechando os olhos com força, para não ver.

Pode ser que, após a quarentena, tentemos tod@s manter os olhos abertos e a matrix desligada?

Ler artigo completo ...