Carta para uma amiga fiel – sobre um término amoroso

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Rio, em um dia de calor cortante do verão de 2019.

É, eu tinha me esquecido da senhora… Fazia tempos que a gente não se encontrava. 

Esbarrei contigo ali, no Largo do Machado, espécie de versão carioca do Intendente lisboeta, quando ele me deu notícias do que você era capaz de fazer. Encolhia-se como um miúdo diante do monstro imaginário, enquanto manchava as linhas do poema a ti dedicado com a água silenciosa que, sem sucesso, tentava impedir deslizar pelo rosto. 

Por alguns instantes, vi o meu abraço ser transformado na barra da saia da mãe. Lembrei-me, vagamente, dessa sua habilidade de brincar com o tempo. Não importa a idade, na sua companhia voltamos a ser infância, quando o melhor lugar do mundo era um só, o colo que nunca se cansa.

Mesmo querendo te evitar, chegou o dia do nosso encontro marcado. Foi ali, naquela avenida tumultuada, a do Término de Relacionamento, sempre com muita gente se truncando uma nas outras. Talvez devido ao seu chão áspero e desnivelado, que estimula choques e esbarrões nada elegantes.

Tentei resistir e de você me desviar. Minha vontade inicial foi maldizer todos os que já haviam passado por mim e seguir adiante, fingindo que não te via. Mas depois do derradeiro café, que não durou nem dez minutos, quando a potência-do-nós-dois definhou-se em futuro-do-pretérito, naquele domingo incongruente, de sol triste, acionei o GPS. Era inevitável: só me restava te fazer uma visita.

Adentrei à referida avenida e lá reencontrei o baú onde te guardava, minha antiga e conhecida companheira. Você, que nele habitava há algum tempo, expandiu-se, e agora vinha fazer morada também em mim.

Peço-te licença, vou contar um pouco como foi o nosso encontro.

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