Bestas ou bestiais

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Onze e quarenta, não consigo dormir. Penso nas vítimas. Na minha cabeça passam tantas perguntas e sem uma resposta. Incomoda-me a indiferença com que se culpam a vítimas. Questiona-se o comportamento das mesmas, como se tivessem pedido para serem violadas. Os comentários nas redes sociais são o exemplo da nossa sociedade.

Não podemos sofrer em silêncio. Não se pode sofrer de maneira diferente. Porque se o fazemos, para a maioria dos comuns mortais, não temos cara de sofrimento.

Falo no plural. Porque eu ou uma outra qualquer podemos sofrer, podemos ser vítimas. Então, e para nos levarem a sério, temos mesmo de fazer acreditar terceiros que somos realmente vítimas. Para isso importa que não saiamos de casa a “jeito de pedi-las”.

Quando saímos de casa, temos de pensar que podemos ser vítimas de alguma coisa, portanto convém que nos portemos como tal.

O sofrimento tem de estar explícito na nossa cara, nos nossos gestos, na nossa roupa. Ou então não é sofrimento.

Para sofrer devemos levar algumas coisas em conta.

Convém chorar, de preferência muito.

Nunca podemos vestir cores (em caso de luto).

Convém estarmos medicadas e ter um atestado médico comprovando que a nossa saúde mental foi atingida.

Nunca, mas nunca, sorrir. Mesmo que seja para afastar a dor.

Raramente sair de casa. Se sairmos, devemos ir acompanhadas.

Sair à noite com os amigos, nem pensar. Eles que venham a casa e tragam lenços. De volta levem notícias nossas: “coitada, estava de rastos”!

É importante que soframos e que esse sofrimento seja visível aos olhos dos outros, porque senão não conta.

É importante que a dor determine a nossa vida, contrariamente, não conta nem consta na lista de sofrimento.

Ainda mais importante, baixarmos os braços e que deixar os outros tomarem conta da nossa vida. Se mostrarmos garra, não somos vítimas. Somos culpadas.

Ser fraca é um atributo preponderante na decisão dos outros, se somos vítimas ou culpadas.

Não podemos ter brio, orgulho ou necessidade de sorrir.

Ser vítima não é a mesma coisa do que “fazer-se de vítima”, no ponto de vista de quem avalia o nosso sofrimento.

Avaliar o nosso sofrimento é para quem sabe, não é para quem sofre.

Determinar como se sofre é para os outros, nunca para a vítima.

Encontrar soluções para deixar de ser vítima, isto já é para a própria vítima, isto se, aparentemente, não se parecer nada com uma vítima.

Até no mais leve sofrimento. Se nos dói uma perna, temos de mancar, senão não nos dói nada, é fita.

As mulheres e as fitas.

Vestem- se para provocar.

Saem para arranjar homem.

Sorriem porque têm o desplante de serem felizes, mesmo sozinhas.

Bebem como os homens.

Fumam como os homens.

Para o que lhes havia de dar. Depois não se queixem.

Se fazem isto tudo e ainda são feministas, são umas grandes putas.

Sim, esta é a sociedade em que estamos e vivemos, a maioria de nós.

Sim, temos de lutar todos os dias. Por respeito. Por respeito e mais respeito.

Enquanto existirem pessoas a achar que feminismo é o contrário de machismo, uma vítima nunca será considerada vítima se não corresponder ao que esperam dela, o que aparenta e a forma como se comporta.

A dor e a alegria, aliás qualquer sentimento, não são mensuráveis nem iguais.

O machismo é a realidade em que as diferenças não nos dão direitos iguais.

O feminismo é a luta por direitos iguais respeitando todas as diferenças.

A moral é aquilo que nos distingue. Bestas ou bestiais.

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