Vida amargurada

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“Tens de casar, Susana!” Desde que fiz os trinta, tenho vindo a ser pressionada para casar e ter filhos. A sociedade sempre viu a mulher como mãe e como esposa. Mas eu nunca sonhei com isso. Nunca quis aturar um homem. Desde pequena que vivi ao lado de psicólogos, tornaram-se a minha família, pois mãe e pai biológicos nunca conheci. Morreram. Fui adotada aos nove anos, porém nunca confiei nos meus novos pais. Vivi amargurada a maior parte do tempo, mas não culpo os meus pais adotivos, ajudaram-me em tudo e ainda hoje, com oitenta anos, ainda fazem o que podem por mim.

Todos sabem que assisti ao homicídio da minha mãe, mas poucos sabem o que eu senti. Assisti a tudo. A cama a balouçar ao sabor das pancadas, o som de vidro a partir, os gritos assustados da minha mãe, o olhar de fogo do meu pai, o cheiro a álcool, o sangue vivo no chão, o medo, a dor… E o meu próprio pânico. O pânico de uma criança de três anos que não tinha idade para ver o que viu. O meu pai foi preso. A minha mãe para uma cova. E eu… eu cresci com fantasmas.

Deveria ter tido um bom pai. E tive. O meu pai adotivo. Mas ele não substitui o verdadeiro. O sangue dele corre-me nas veias, querendo eu ou não.

Não quero viver com um homem. Não quero passar pelo que eu vi. Não quero ser a minha mãe. Não quero morrer jovem, não quero morrer com um olhar de medo, de barriga para cima, numa cama cheia de sangue vermelho vivo…

– Susana, tudo bem?

O psicólogo olhou para mim. Nem percebi que ele se encontrava à minha frente. Apenas afirmei com a cabeça.