VAMOS FALAR DE ECOFEMINISMO

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Confesso-vos que tomei contacto com o conceito de Ecofeminismo, faz pouco tempo, na faculdade. Interessado pelo conceito e o seu significado, decidi fazer um pouco de pesquisa e partilhar convosco os resultados da mesma.

O Ecofeminismo é uma teoria e um movimento social que sustém a existência de vínculos profundos entre a subordinação das mulheres e a exploração destrutiva da natureza, com o objetivo de alcançar a justiça para as mulheres e transformar a relação humana com os demais seres vivos e ecossistemas.

Para Alicia Puleo, da Universidad Complutense de Madrid “O objetivo mais profundo da filosofia ecofeminista é o de uma redefinição do ser humano que implique uma redefinição dos demais seres vivos, de forma a habitar mais pacificamente a Terra”. A mesma autora defende que “O Ecofeminismo é o encontro entre o feminismo e a ecologia. O feminismo tem uma trajetória muito mais extensa que a ecologia, já que se pode falar de teoria feminista – ainda que não se denominasse assim – desde finais do século XVII e como movimento organizado desde a criação do sufragismo em 1848”.

Contudo, desde os finais do século XX, o renascer do feminismo deu-se paralelamente com o surgir do pensamento ecologista e ambos foram considerados por alguns estudiosos das ciências sociais e humanas como movimentos sociais que reivindicavam uma melhor qualidade de vida, por exemplo: um meio ambiente menos contaminado ou relações pessoais mais paritárias.

Entre os nomes que mais se destacam no Ecofeminismo, sublinhar Françoise d’Eaubonne, que nos anos 60 do século XX desenvolveu os primeiros estudos sobre esta questão. Ainda a nível europeu, a alemã Petra Kelly, conhecida pacifista e cofundadora dos Verdes Alemães. Nos Estados Unidos da América, nomes como Carol Adams – escritora e defensora dos direitos dos animais – ou Karen Warren – escritora e filósofa, dedicada aos problemas éticos e ao pensamento científico.

Em territórios menos falados, temos Wangari Maathai, no Quénia. Este foi a primeira mulher africana a receber o Prémio Nobel da Paz, em 2004,  pela sua contribuição no desenvolvimento sustentável, na democracia e na paz. Foi ainda a dinamizadora da plantação de milhões de árvores, para combater a desertificação em África. Na Índia, Vandana Shiva, líder do Fórum Internacional sobre a Globalização e ativista contra a desflorestação dos Himalaias, inspirada pela resistência não violenta de Gandhi. Ou ainda, Val Plumwood, filósofa australiana e membro da Deep Ecology.

De destacar também o nome de Berta Cáceres, feminista e ativista ecologista das Honduras, que foi assassinada em 2016. O sucedido ocorreu após esta ter tentado defender o seu território – virgem – e de ter igualmente lutado para que não fossem explorados os recursos naturais do mesmo, algo que tem sido prática comum em populações que se veem completamente expropriadas e desalojadas à força. Contudo, importa salientar que o papel da mulher é “distinto”, segundo o ambiente em que esta se encontre. Como se sabe, não é igual ser-se mulher no campo ou na cidade, porém, existem diferentes formas das mulheres se posicionarem nos contextos em que se inserem, independentemente da sua geografia, instrução ou background familiar.

O Ecofeminismo é, deste modo, uma redefinição da realidade, uma redefinição de quem somos como humanos, a partir da análise de como nos definem os papéis de género e de quais devem ser as nossas relações com a natureza, num tempo que se pauta por alterações climática e de crise ecológica.

Uma das características que mais surpreendem os estudos sociológicos é que as mulheres estão na maioria dos grupos ecologistas a nível internacional, contudo, sem ascenderem às partes mais “elevadas” das estruturas. Esta falta de voz e representação nas estruturas mais elevadas das organizações não são, contudo, um reflexo da preocupação que as mulheres refletem no futuro e no desenvolvimento destes movimentos ecologistas. Entre os temas que levaram a algumas feministas dos países mais desenvolvidos ao Ecofeminismo, está a preocupação pela saúde pública ou pelas ameaças à contaminação da mesma. Dentro deste tema, a luta pelas crianças, o trato dos animais, as ameaças constantes a uma possível guerra nuclear e a falta de sustentabilidade, baseada nos recursos não-renováveis e na destruição constante de ecossistemas. Atualmente, encontramos mulheres movidas pelas preocupações ecologistas também nos países menos desenvolvidos. E é deste grupo que se deve falar com mais frequência. Existem mulheres de povos sul-americanos, por exemplo, que lutam por causas como os cultivos transgénicos ou a devastação obtida através da exploração mineira. Muitas dessas ativistas dão a cara quando morrem os seus maridos e seguem na defesa dos seus territórios. Para a filósofa Alicia Puleo, a diferença entre o Ecofeminismo no qual acredita e o Ecofeminismo mais existencialista, passa pela visão da mulher como “ecologista natural”. A autora distancia-se dessa posição e afirma que não crê que as mulheres tenham uma missão naturalmente predeterminada, senão que homens e mulheres são natureza e cultura. Que desse modo não existe uma ecologista em cada mulher e que a nossa posição na sociedade, bem como a história de género socialmente construído, tende a explicar – em grande medida – a atitude de cuidado com a vida. A autora ainda acrescenta que outra coisa que biologicamente acontece é o facto de o corpo feminino ter uma maior vulnerabilidade face à contaminação. Essa questão tem sido comprovada por inúmeros estudos que indicam que os agentes tóxicos presentes nos alimentos – por exemplo – afetam mais as mulheres que os homens. Existem outros indícios, igualmente claros, que nos dizem que o aumento do número de casos de cancro de mama se deve sobretudo à contaminação do meio ambiente e pela inserção de substâncias químicas. Estas substâncias são encontradas nos alimentos que contêm restos de pesticidas ou outras substâncias químicas derivadas de tintas, produtos de limpeza, perfumaria, plásticos ou resinas sintéticas. O caso agrava-se quando essas partículas são encontradas no leite materno, sem que, contudo, se fale do assunto e das causas deste tipo de problemas.

Quando se cuida, entende-se em que medida a vida é frágil, sobretudo em momentos como a infância, a doença e a velhice. As sociedades mudam a uma velocidade feroz e o ambiente tem cada vez mais assumido um papel de destaque na agenda global. As mulheres entendem-no desde cedo, cuidam da vida – humana e natural – e cabe cuidarmos também um pouco dos nossos e daquilo que nos rodeia.