VAMOS CONGELAR O NATAL?

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Acaba tudo tão depressa que quase parece que nem aconteceu. Nos vossos quartos estão os novos brinquedos que ainda não têm lugar certo e exigem estar por ali, em lugar de destaque, prontos a serem admirados e a prolongar mais um bocadinho esta alegria. Na árvore sobram dois ou três embrulhos ainda por reclamar e a estrela está meio torta de tanto ter sido mexida.

Em cima da mesa ainda restam rabanadas e o bolo-rei e, a cada refeição, os pratos vão ficando mais pequenos até desparecerem. Já nos fartámos de aspirar e, mesmo assim, continuam a saltar migalhas dos sítios mais inusitados. O Natal já passou. Devem ser as mais rápidas vinte e quatro horas do ano e, a partir de agora, ficam as memórias que, de dia para dia, serão menos cheias e mais escolhidas, não necessariamente como as sobremesas, que só sobram as menos amadas.

Cada hora que passa depois de passar do Natal, vocês não sabem, mas o meu coração angustia-se, porque é por aqui que nós medimos a vida e a alimentamos. É por aqui que vos vemos crescer, que deixamos de comprar legos e bonecas e passamos a oferecer-vos bilhetes para festivais e ténis e, mesmo fazendo mortais encarpados para garantir que as vossas memórias sejam sempre as mais felizes e cristalinas, sabemos que o Pai Natal não existe e que o mundo não vos dará sempre o mesmo abraço e a mesma protecção, muito menos a realização de todos os vossos sonhos embrulhados em papel colorido.

Eu sei que os filhos não são nossos, que são do mundo e que temos de lhes dar asas e todas essas coisas que os pais dizem uns aos outros, acredito, muito mais para se convencerem e fugirem à pieguice do que para acalmarem o sofrer do outro que é tão igual ao seu.

Eu não queria que o Natal acabasse. Queria ter-vos sempre aqui, deslumbrados com as luzes e os presentes, vestidos como príncipes e a cheirar a canela, a perguntarem de dez em dez minutos se já é meia-noite.

O que eu mais gostava, mesmo, é que nos vossos olhos houvesse sempre esse brilho feliz e único de quem teve tudo o que sonhou, que os vossos braços andassem sempre no meu pescoço e as vossas bocas, coladinhas à minha cara, repetindo um “obrigado, Mãe” tão confiante e sereno que devia ser gravado.
Queria que, todas as manhãs, pudessem correr de pijama para o brinquedo novo e por aqui ficassem, quentes.
Queria que as vossas pernas não crescessem tanto que chegam a não precisar das minhas para ir e vir onde bem vos apetecer, que o vosso coração só quisesse estar aqui a sonhar e não num qualquer lugar longe.

Eu sei que os filhos crescem, eu sei. E que de um Natal ao outro vai um pulo tão curto que mal se dá por ele mas, no entretanto, tanta coisa vos acontece e como mudam.

A vida está a passar tão rápido, que a única coisa que me devolveria esse brilho que hoje é vosso mas que eu também já tive, era ter-vos assim, sempre pequeninos e só meus, num Natal eterno, com verdadeiros meninos Jesus, que eu adorasse para sempre, em casa.
Nesta casa onde se faz por vós e para vós, Natal todos os anos. Para os mesmos meninos que são sempre meninos diferentes e que um dia não acordarão mais aqui mas noutra casa qualquer e me deixarão sem nada para arrumar numa manhã que já teve tantas pernas de pijama enroladas nas minhas.

Um dia, vocês terão boas memórias e eu terei as maiores saudades do mundo.