UMA MULHER TEM DE SE DAR AO RESPEITO

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Cresci a ouvir que a mulher tem de se dar ao respeito. Não me lembro em particular de quem, mas ouvi esta frase dezenas de vezes ao longo dos meus vinte e dois anos de existência. Nunca consegui entender o que significava isso de uma mulher ter de se dar ao respeito. Várias coisas me desconcertavam.

Se somos todos iguais, porquê especificar que é a mulher que tem de ser dar ao respeito? Não deveríamos, por essa lógica, dizer “as pessoas têm de dar-se ao respeito”? Mas ainda assim, algo não parece certo. Não deveríamos todos merecer respeito? O que significa isso de nos darmos ao respeito? Significa que tenho de me comportar de um certo modo, considerado apropriado, para merecer respeito?

Toda essa frase me soou sempre a ameaça e, por isso, desde miúda me dá a volta às entranhas e me desperta uma raiva de gritar que não tenho de fazer por merecer respeito só por ser mulher.

Depois cresci e aprendi que o dar-se ao respeito, para a mulher, significa não usar roupas demasiado provocantes, mas não demasiado púdicas, não vá ser o caso de parecermos desinteressantes. E aprendi que o “ser interessante” da mulher é ser bonita e transpirar mistério de boca calada. Bonito não é gritar e chorar por temas do nosso interesse, bonito não é berrar a falar de ética ou política, isso é ser chata. Bonito é ser singela.

Mas ao crescer, cresceu comigo uma definição paralela de mulher, aquela que eu inventei para mim. A da mulher bonita, porque vive de olhos atentos ao mundo que a rodeia. A da mulher bonita porque cria uma história nova nos versos das páginas da história que escreveram para ela. Inventei para mim que ser mulher é ser o que eu quiser.