UM SINAL DE FEMINISMO DENTRO DA IGREJA CATÓLICA?

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No próximo dia 3 de outubro, e a poucos dias do começo do Sínodo da Amazónia, as mulheres tomam a palavra no Vaticano através do movimento #votesforcatholicwomen. Esta iniciativa, que nasce sob a alçada da Voices of Faith, exige ao Papa Francisco e aos Bispos a igualdade no que aos trabalhos dentro da Igreja diz respeito.

Atualmente, as mulheres ocupam mais de metade do pessoal religioso do mundo e, por isso, lançaram uma petição e um vídeo no qual pedem a paridade de direitos e responsabilidades no seio da Igreja Católica. O evento de dia 3 de outubro tem por objetivo dar voz às religiosas de todo o mundo que superam os homens num rácio de 10 mulheres para 1 homem. Contudo, estas não têm direito a votar nem a aceder à liderança das esferas eclesiásticas.

No centro das diferentes polémicas ao longo da própria história da Igreja Católica, está o facto das líderes das distintas congregações e participantes no Sínodo da Amazónia não terem voz nos debates, nem tampouco poder de voto. A este facto juntam-se os já conhecidos casos de abuso sexual que, segundo Doris Wanger, ex-religiosa e vítima de violação – chegam aos 40% dentro da Igreja – 10% antes das mulheres se juntarem à vida religiosa e 30% depois disso, havendo casos em que os sacerdotes obrigaram as freiras a abortar.

Este constante veto às mulheres vai contra um dos desígnios do atual Papa e que é o de “construir uma Igreja mais igualitária”. Contudo, quem rodeia o Papa Francisco ainda defende uma estrutura patriarcal onde as mulheres são apenas serventes dos homens. Estas ainda vivem em posição de vulnerabilidade no seio do Catolicismo, por meio da abnegação e submissão, assim como da “dependência espiritual e financeira”.

Entre as poucas mulheres a ocupar um lugar de responsabilidade dentro da estrutura eclesiástica está a espanhola María Luisa Berzosa. Esta foi nomeada pelo Papa Francisco como membro da secretaria geral do Sínodo, em conjunto com outras três mulheres. Ainda assim, María Luisa não terá poder de voto neste Sínodo, onde se discutirão, por exemplo, as funções ministeriais das mulheres dentro da Igreja Católica.

Esta invisibilidade dentro da Igreja Católica é também denunciada por Alessandra Smerilli, uma das mulheres com mais poder no Vaticano. É um dos membros da secretaria de Economia da Cidade do Vaticano e defende que é importante “reconhecer que historicamente a mulher na Igreja se dedicou mais ao cuidado e que, agora, toma consciência que pode trabalhar de igual para igual”. Defende que “Deus confiou o mundo ao homem e à mulher” e que isso sublinha a importância da mulher nas estruturas de poder. Remata que “quando for dado o primeiro passo, já não se poderá voltar atrás (…) e quando essa porta se abrir, não se voltará a fechar”.

Mais que defender a participação das mulheres nas esferas de decisão da Igreja, assim como o tema do exercício do sacerdócio feminino, o movimento #votesforcatholicwomen procura também discutir o tema do abuso sexual. Este foi trazido à luz, há pouco tempo, ainda que já fosse conhecido desde há muito pelo poder exercido pelos diferentes eclesiásticos através da sua situação de privilégio. Até mesmo o Papa já teve de intervir nesta questão, admitindo que o tema dos abusos sexuais é um dos grandes desafios do futuro a tratar pelo Vaticano.

Plataforma de debate e visibilidade de um género que tem sofrido em silêncio,  sendo secundarizado numa organização com tanto poder e influência pelo mundo, a #votesforcatholicwomen terá ainda um longo caminho a percorrer e muitas batalhas a travar pela frente. Podemos assumir ainda que este movimento é um sinal de feminismo(s) dentro da Igreja Católica e que, a ser bem-sucedido, irá produzir uma das maiores revoluções sociais e culturais vividas na história do mundo Depois de Cristo.