UM MURO DE ESPERANÇA

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Louvemos o celibatário deus hindu do crescimento, Ayyappan, filho de Shiva e de Mohini, o avatar feminino de Vishu, a quem os devotos visitam anualmente em peregrinação em Kerala, na Índia, no mosteiro de Sabarimala. É um mosteiro que acolhe todos entre o final de Dezembro e o princípio de Janeiro, e quando escrevo todos, refiro-me a pessoas de todas as castas e das subcastas – os intocáveis – a quem a República da Índia veio reconhecer direitos que até à sua implantação em 1950 não tinham. Nada de especial como direitos, apenas os direitos humanos que aos seres humanos devem ser reconhecidos. Não que a maior parte dos intocáveis agora deles usufruam na plenitude que seria desejável 72 anos depois da independência do Reino Unido, mas pelo menos a lei, se não os costumes, está do seu lado.

Repito, louvemos o celibatário deus hindu  do crescimento, Ayyappan, filho de Shiva e de Mohini, o avatar feminino de Vishu, a quem os devotos visitam anualmente em peregrinação, em Kerala, na Índia, no mosteiro de Sabarimala. É um mosteiro que acolhe todos… mas quando escrevo todos não me refiro a todos e a todas porque a tradição tem impedido as mulheres em idade fértil, considerada grosso modo dos 10 aos 50 anos, de aí entrarem e de aí prestarem as suas homenagens. Como todos os outros. Como todas as outras mulheres antes e depois de deixarem de ser menstruadas.

Louvemos o Supremo Tribunal Indiano que em Setembro passado proibiu esta proibição (louvemos o pleonasmo!), sofrendo as críticas de quem considera que esta foi uma decisão contra o próprio hinduísmo (e ainda há quem ache que misturar os poderes – o legislativo, o judicial ou o religioso – não dá maus resultados). Mas louvemos sobretudo as mulheres do Kerala que, apesar de apedrejadas, têm insistido no seu direito de rezar em todos os locais, até em Sabarimala, o mais sagrado dos mosteiros hindus daquele Estado, o que é dedicado ao celibatário deus do crescimento, Ayyappan.

Louvemos os cinco milhões de indianas (metade da população portuguesa) que invadiram as ruas, as estradas e as autoestradas do Estado de Kerala, na Índia, e fizeram um cordão humano – um muro, um festivo muro de saris – com 620 quilómetros. Foram apenas 15 minutos… ou foram os mais coloridos e brilhantes 15 minutos da história das mulheres no Estado de Kerala, na Índia, onde, até agora, acatavam a proibição de rezar em Sabarimala sem reclamar. Como se aos 10 anos e um dia fossem diferentes dos 9 anos e 364 dias… como se ao perfazerem 51 anos retomassem uma pureza que a menstruação retira (e não se pense que essa coisa da impureza ligada ao ciclo menstrual é coisa de bárbaros asiáticos porque por cá, nesta terra de costumes europeus “civilizados”, também é suposto que a maionese talhe se for preparada por uma mulher menstruada, ou que os bolos não acabem de cozer).

Louvemos os quase 15% da população daquele Estado da Índia (31 500 000 de seres humanos) que durante 15 minutos ocuparam 620 quilómetros de estrada (pouco menos do que a mais longa estrada portuguesa, a EN2, que em 738,5 km liga Chaves a Faro) para dizer que todas as mulheres, seja qual for a sua idade ou condição, têm direito a estar onde muito bem lhes parecer.

Louvemos os 29% das mulheres do Kerala, na Índia, que saíram à rua para, em apenas 15 minutos – 900 segundos – dizerem que não admitem mais ser discriminadas.

Louvemo-las então!