UM AMOR PARA A VIDA TODA

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«Um amor verdadeiro dura a vida toda»

«Se terminou é porque não era amor»

Estas duas ideias (ia escrever mentiras, mas não quero alienar já os possíveis leitores) de formas mais subtis ou mais diretas, são-nos incutidas, a quase todos, desde que nascemos:

A criança (a maioria, pelo menos) nasce no seio de uma família que assinou um contrato perante a restante família, os amigos, a lei, e muitas delas perante Deus, para existir. Apesar de esse contrato poder, felizmente, ser dissolvido, à partida a sua existência pressupõe que as pessoas envolvidas tenham o propósito de que esse seja duradouro e vitalício. As estatísticas dizem-nos que tal já acontece muito menos, na minha opinião ainda bem, mas o objetivo traçado a cada início de relação é esse: que a união permaneça, idealmente, para o resto da vida dos dois.

As primeiras histórias de amor contadas, sejam elas quais forem, vêem-se transmutadas, recortadas e reorganizadas para que acomodem no seu final as famosas palavras que fazem já parte do nosso imaginário e cultura coletiva “e viveram felizes para sempre!” quer estas existam na versão original, quer não. Qualquer menina ou menino que cresça ouvindo histórias de princesas e príncipes saberá de cor e salteado a lengalenga final, que remata com chave de “ouro” a história e a relação que se inicia no princípio do livro. E nós adultos, mães e pais, vibramos quando ouvimos a nossa criança, de dois ou três anos, rematar o final da história com as suas palavrinhas agudas e mal pronunciadas: “e viveam fizes pa sempe!”, sem perceber, sem antecipar, que estamos já a inculcar uma cultura de durabilidade e vitaliciedade das relações de amor humanas. Na realidade não é só a durabilidade que estamos a defender e a inculcar, é também a necessidade de essa durabilidade vir acompanhada de felicidade permanente “felizes para sempre” um logro tão ou mais pernicioso do que o da eternidade do amor. E enquanto crescemos, essa ideia é raramente desafiada pela cultura mainstream; pelo contrário, somos levados a acreditar que o amor verdadeiro é até capaz de ultrapassar as fronteiras da nossa existência corpórea, havendo lendas urbanas, passadas e repassadas de geração em geração, daqueles amores eternos não interrompidos pela morte física dos seus protagonistas, sendo a “vida” pós-morte o palco da continuação desse amor. Desculpem-me lá o deitar água na vossa fervura, mas esta ideia faz-me revirar os olhinhos nas órbitas de desdém, de tal forma que quase consigo ver o ontem.

Com o passar dos anos, percebemos que fomos confrontados com um sem número de histórias – reais e ficcionadas – de amores que foram eternos, mesmo quando começaram na adolescência; de casais que viverem uma vida inteira juntos sem nunca terem namorado, beijado ou tido relações sexuais com mais ninguém; de elementos de um casal que, ao perderem o par para a morte, depressa definharam e morreram também, por não serem capazes de viver um sem o outro.

Já repararam que o apelo da perfeição é tão ou mais forte do que o do abismo? E o romantismo exacerbado e alimentado por aforismos simplistas e irrealistas aproveita esta atração e consegue entranhar-se na cultura de um povo, no modo de estar e de pensar a vida e as relações, fazendo com que lutemos para alcançar utopias colocando de lado a felicidade.

Para complementar estas histórias, tal como nos guiões de filmes, há sempre (ou quase sempre) um vilão ou uma vilã, alguém que tenta interromper o idílio e falha o objetivo, sendo no processo olhado de formas distintas caso o intruso seja homem ou mulher: se for homem, será a mulher na relação a portadora de mácula, para o resto da vida, aos olhos da sociedade, ainda que a relação em que se encontrava não termine por isso; se for uma mulher a intrusa, sendo fonte de tentação para o homem do casal, será ela (a intrusa) a má da fita, aquela que será apelidada de puta, desencaminhadora, meretriz e outros epítetos que tal, por vir perturbar a harmonia do casal. Espero que não vos tenha passado ao lado a ironia de recair sobre a mulher a culpa e a responsabilidade de todo e qualquer comportamento desviante e desafiante para a relação, mesmo quando é o homem a trair.

Sinto que divaguei um pouco mais do que tinha definido, mas este não é um assunto linear, não há uma resposta standard para a questão: Um amor para a vida toda: sim ou não? De facto, há a possibilidade de respostas díspares serem válidas, dependendo da pessoa e do casal em questão.

Então qual é verdadeiramente o problema? A meu ver, é um só: a pressão social para a conformidade e a conformação com a ideia de que devemos trabalhar para que a relação seja duradoura, preferencialmente vitalícia. É que mesmo quando uma relação chega ao fim e vemos relatado esse término, um ou os dois elementos do casal são retratados como estando em sofrimento, desnorteados, semiperdidos na vida, sem um rumo ou um sentido claro que, vezes sem conta, só é restaurado com o início de outra relação. Algo de errado se passa com uma sociedade que vê os seus elementos como obrigatoriamente pertencentes a um par, caso contrário estarão, ainda que hipoteticamente, tristes e com pouca serventia (acho que convém lembrar que não somos meias ou sapatos!).

Estas ideias e muitas mais são explicadas de forma clara, simples e com legendas no vídeo que se segue.

Sim, eu sei que há também muito a dizer em favor das relações duradouras e das suas vantagens, mas este texto não invalida um próximo sobre este assunto. Neste momento quero só pensar e levar-vos a pensar (se possível) na validade das relações curtas e como só deve durar o que é bom e nos faz felizes.

https://youtu.be/GRwWt-cFKNY

In Viradas do Avesso, por Helena Barreto Ferreira