UM AMOR PARA A VIDA TODA

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As primeiras histórias de amor contadas, sejam elas quais forem, vêem-se transmutadas, recortadas e reorganizadas para que acomodem no seu final as famosas palavras que fazem já parte do nosso imaginário e cultura coletiva “e viveram felizes para sempre!” quer estas existam na versão original, quer não. Qualquer menina ou menino que cresça ouvindo histórias de princesas e príncipes saberá de cor e salteado a lengalenga final, que remata com chave de “ouro” a história e a relação que se inicia no princípio do livro. E nós adultos, mães e pais, vibramos quando ouvimos a nossa criança, de dois ou três anos, rematar o final da história com as suas palavrinhas agudas e mal pronunciadas: “e viveam fizes pa sempe!”, sem perceber, sem antecipar, que estamos já a inculcar uma cultura de durabilidade e vitaliciedade das relações de amor humanas. Na realidade não é só a durabilidade que estamos a defender e a inculcar, é também a necessidade de essa durabilidade vir acompanhada de felicidade permanente “felizes para sempre” um logro tão ou mais pernicioso do que o da eternidade do amor. E enquanto crescemos, essa ideia é raramente desafiada pela cultura mainstream; pelo contrário, somos levados a acreditar que o amor verdadeiro é até capaz de ultrapassar as fronteiras da nossa existência corpórea, havendo lendas urbanas, passadas e repassadas de geração em geração, daqueles amores eternos não interrompidos pela morte física dos seus protagonistas, sendo a “vida” pós-morte o palco da continuação desse amor. Desculpem-me lá o deitar água na vossa fervura, mas esta ideia faz-me revirar os olhinhos nas órbitas de desdém, de tal forma que quase consigo ver o ontem.

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