TU NÃO ÉS DEPRESSIVO, ÉS PREGUIÇOSO!

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Recentemente deparei-me com um artigo, escrito por profissionais, de uma clínica privada, que assumia a depressão como um estado emocional e não como uma doença mental, que é o que esta é na realidade.

Basta consultar o SNS que logo surge uma breve explicação do que é a depressão, das causas, dos tratamentos e uma série de coisas que podem ajudar a tratar doentes depressivos.

Fiquei revoltada. Porque o artigo foi escrito por profissionais. Porque o artigo está a ser partilhado por uma clínica. Porque milhares de pessoas arranjaram mais um pretexto para rotular os doentes mentais de “preguiçosos”. Porque milhares de pessoas revoltaram-se e desabafaram o seu estado depressivo e a Clínica logo se disponibilizou a ajudá-los.

Mas afinal o que é isto? Como se diz no Norte «estão a tentar vender o peixe deles», disso não há qualquer dúvida, mas desvalorizar a depressão numa rede social, num país com a mente fechada que assume todos os doentes mentais como “medíocres”, “incapazes” e “preguiçosos” é vergonhoso, sobretudo vindo de uma clínica. Não era suposto serem esses os primeiros a levantar o véu e a ajudar?

As áreas da psicologia e da psiquiatria evoluíram bastante, é um facto inegável, e a depressão é encarada nos dias de hoje como um sério problema psicopatológico – não é à toa que foi considerada a doença do século 21 – e como tal é preciso ser cada vez mais estudado e trabalhado de forma a que seja possível melhorar a qualidade de vida dos milhares que sofrem com esta perturbação.

Olha para o teu futuro, o que vês? Um trabalho? Um futuro? Educação continuada? Uma família? Uma casa?

Isso é o que qualquer um sonha para o seu futuro. Pessoas depressivas têm problemas com o passado, presente e futuro. São assombradas pelo passado, atormentadas pelo presente e têm medo de enfrentar o futuro. Não conseguem motivar-se para seguir em frente a partir desse revés. Quando somos jovens nunca imaginamos que uma doença mental poderá acontecer connosco. Achas que tudo ficará bem e toda a tua vida será fantástica. Desculpa ser dura, mas estás errado. Acontece a qualquer um.

Ser doente mental é como um comércio comum. Foi a abertura dos olhos. O nosso país ainda se fecha e se recusa ao financiamento para a compensação deste tipo de problema e, embora cada vez mais pessoas sejam diagnosticadas, é revoltante pensar que os doentes mentais são deixados à sua própria sorte. Sermos assumidamente loucos não é um privilégio da classe média.

Outra coisa chocante: o julgamento e a visão que os demais têm sobre os doentes mentais. É incrível como algo tão proeminente na sociedade seja ainda um tabu social. Qualquer pessoa com distúrbios psicológicos é rotulada de “louca”, “anormal”, “preguiçosa”. Talvez pensem que isso os faça sentir melhor. Vem viver na pele de alguém que sofre com Transtorno Bipolar, Esquizofrenia, Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Transtorno Depressivo, a lista é longa. Basta experimentares, aposto que não durarias um dia.

Se encontram alguém com cancro e cabeça rapada “coitadinho”, se encontram alguém numa cadeira de rodas “coitadinho”. As pessoas julgam porque não veem sangue ou cabeças rapadas, e então partem do princípio que somos preguiçosos, que temos manha, que preferimos estar na cama a chorar baba e ranho. Lembras-te daquela rapariga que durante todo o Verão usa camisolas compridas, ou enche os pulsos de pulseiras. Lembras-te daquele rapaz cheio de tatuagens que julgaste drogado no outro dia? A diferença entre alguém mentalmente doente e alguém fisicamente doente é que os primeiros tentam esconder as cicatrizes, por medo do julgamento.

Ninguém diz a um doente com cancro que basta acreditar que o cancro irá passar. Ninguém diz a uma pessoa com uma perna amputada que basta acreditar e assim irá conseguir levantar-se e caminhar sem apoio. Mas os preguiçosos? Esses só precisam acreditar, sair da cama, abrir a janela, ver o sol a raiar e sair de casa para trabalhar que o assunto resolve-se.

Não. Não se resolve. Existem sessões de psicoterapia, terapias de relaxamento, pessoas dispostas a ajudar, profissionais qualificados para acompanhar os doentes, aulas de pintura, ioga, jogging e uma infindável variedade de coisas que doentes que sofrem com transtornos psicológicos podem fazer para tentarem ultrapassar. Se resolve a médio ou a longo prazo? É uma incógnita. Se a dor irá durar para sempre? Nunca se saberá.

A vida é uma eterna luta e o nosso coração será partido imensas vezes pelo caminho, sobretudo quando, no auge da dor, somos confrontados com comentários inúteis ou clínicas que não passam de uma farsa para ganharem uns trocos a desvalorizarem todo o sofrimento emocional ao qual estamos sujeitos.

A essa clínica, cujo nome não menciono, porque é um insulto a todos os que estão mentalmente debilitados e a todos os que continuam a dizer que a depressão passa (claro que passa, tenho um elefante a dormir em cima do meu peito, e não dói nada) se acreditarmos e deixarmos de ser preguiçosos, aconselho-vos a lerem o DSM-V (uma espécie de enciclopédia dos psicólogos e psiquiatras) que revela o tipo de desordem psicopatológica aplicada a pessoas como estas.

Acredito que rotulamos os doentes mentais de preguiçosos e doidos da cabeça para mascarar a nossa própria insanidade porque, sim é verdade, todos nós sofremos de uma qualquer desordem mental, algumas menos evidentes que outras.