“The Wife” e a urgência da mensagem feminista

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Uma mulher genial que vive à sombra do marido. Não é uma história nova, mas é a história que nos mostra de forma muito clara que a diferença entre homens e mulheres está bem instalada em todas as sociedades. Os ecos da subjugação feminina estão por toda a parte e têm raízes antiquíssimas que só nos dias de hoje se têm vindo a debater.

No filme não há violência física, mas a psicológica, a subjugação, a resignação feminina, a falta de oportunidades, estão lá. De forma tão subtil que quase nem damos por elas, dada a cultura enraizada desta prática. Diria que o tema obscuro da desigualdade de género dentro de uma relação foi tratado com a ligeireza e com a beleza necessárias.

Para quem acha que há um padrão para as vítimas, fica desde logo aqui desmistificado. O filme aborda a história de Joan Castleman, esposa de um ex-professor universitário, Joe, que é laureado com o prémio Nobel da Literatura. Enquanto a alegria de Joe explode, Joan ressuscita os fantasmas que ecoam no seu subconsciente e que nos são trazidos pelos flashbacks do início da relação dos dois. Retratam a abnegação de Joan no passado. Já o presente mostra uma Joan a lutar por manter a paz e a harmonia familiar. Engole sapos, tenta apaziguar discussões de pai e filho e ainda tolera a atração do marido por uma fotógrafa.

Joan representa o padrão comportamental da mulher silenciosa e complacente que faz figuração para o espetáculo do marido. Denotamos isto quando Joe vai à cerimónia de ensaio para receber o prémio Nobel e a ausência de Joan levou-o a sentir-se perdido e sem rumo.

É nitidamente um filme que bebe da realidade para retratar um relacionamento abusivo. No caso, deixar a esposa a escrever/corrigir o livro, durante horas, numa sala isolada dos filhos, e depois voltar para um afago nas costas e com chá.

São estas subtilezas da realidade que muitos absorvem com sendo “normais” e não questionam. Mas ficam nas entranhas de quem as vive, são as vísceras femininas aprisionadas, para que o mundo dos homens possa florescer.

Uma boa obra para estudar a necessidade do feminismo, nos dias de hoje e nos países ditos desenvolvidos, onde se julga que já não há necessidade de travar lutas pela igualdade! Será uma longa luta, haja a necessária consciencialização.