TAMBÉM TU ÉS UMA MARIA CAPAZ por Maria Celeste Vieira

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És minha, desde sempre. Mesmo antes de nasceres, já te imaginava! Na época, com 5 anos, esperava ter um irmão em vez de uma irmã e tinha tudo planeado para poder brincar com uma pista de carros telecomandados – esse não era brinquedo admitido às meninas dos anos 80. Mas a rifa saiu ao contrário, como disse o obstetra da nossa mãe, expressando um humor machista: -“Falta-lhe um bocado, é uma rapariga!”

Nos primeiros anos da infância, desempenhei bem a minha função de irmã mais velha: a ‘tortura’, as brincadeiras, as brigas saudáveis (entre raparigas, o clássico puxar de cabelos). Depois da cena do filme dramático acontecer na nossa vida, começámos a ver filmes diferentes. Ou, por outra, o filme foi sempre o mesmo, a perspetiva é que era distinta: por vezes, era eu que usava os óculos 3D, outras vezes eras tu que os punhas para ver melhor… ou então, saíamos, alternadamente, para comprar pipocas!

A vida continuou, como tinha de ser. Olho para trás e vejo os anos de rebeldia, desencontro, dificuldades! E eu, com a sensação de não ter conseguido cumprir com sucesso o único papel que me cabia: ser irmã – aquela amiga, confidente, porreiraça! Muitas vezes, fui a chata de serviço com uma responsabilidade que me sufocava, mas que eu não declinava, nunca. Houve momentos em que todo o bem e todo o amor se misturaram com demasiada proteção e critica, vistas por ti como julgamento ou, até, alguma superioridade da minha parte: a irmã que é irmã mas tenta ser a mãe mas não deixa de ser a irmã… [Esta sequela seria difícil de dirigir até, para mim, uma potencial candidata a realizadora de dramas!]

 

Sabia lá eu…! Será que alguém sabe? Não há nenhum livro de instruções para sobreviver à morte tão precoce de uma mãe. Menina também eu era… “proteção” também eu gritava. Mas disfarçava, como se pudesse tomar em mim o papel de Deus e suprimir o sofrimento alheio.

 

Hoje, mulheres feitas com a vida a correr. A lutar, cada uma à sua maneira, cada uma com o seu feitio, cada uma com as suas armas. Cada uma, de um lado do oceano Atlântico, enfrentando realidades muito diferentes. Batalhas distintas, garras semelhantes (herança do nosso pai). Continuas a ser a minha menina irmã, um bocadinho filha. Sei sempre – até pelo teu tom a digitar num chat – como te sentes e ‘voo’ em teu socorro… percorrendo os megabytes da rede global que nos aproxima, com a maior velocidade que o meu coração consegue alcançar. Abraço-te com os braços longos da loucura de te aceitar como és, com todos os teus achaques, defeitos e mau humor ao acordar.

 

Não sei se alguma vez te disse: és uma Maria Capaz. Nunca duvides disso. E, talvez, seja eu, agora, que precise que sejas tu, a mãe, de vez em quando (a tal chata à distância de um clique).