SOBRE OS PARTOS “NATURAIS”, OS “BIONASCIMENTOS” E O EMPOWERMENT DA MULHER

4798
dav

Estou grávida de 37 semanas, faltam 3 para parir a criança. Durante estes meses engoli rios de informação sobre mucos vaginais, elasticidade do períneo, incontinência, fraldas, banhos, doenças diversas, carrinhos de bebé e outras semelhantes alegrias da maternidade. Parte dessa informação procurei-a por iniciativa própria na internet, em livros ou em cursos de preparação para o parto. Parte foi-me oferecida gratuitamente por mulheres que já tinham sido mães. De facto, notei que a gravidez alheia tende a ativar a memória das experiências passadas de muitas mulheres que já tiveram filhos e grande parte delas parece sentir-se compelida a partilhar a sua história quando vê passar uma grávida. Sei os nomes dos três filhos seguidos que teve uma costureira de Ponta Delgada, um em 97, outro em 98 e o último em 99; sei que umas das filhas de uma senhora que bebia café no Restelo nasceu de rabo; e passei a saber quantos centímetros dilatou o colo do útero de uma empregada de mesa de Serpa enquanto nos servia gaspacho. Embora seja cansativo responder mil vezes ao mesmo inquérito – “de quanto tempo está?”, “é menino ou menina?”, “como é que se vai chamar?”, “tem a barriga tão grande, tem a certeza que não são dois?” – estas conversas não me incomodam. O que me incomoda são as tentativas de doutrinação por parte de um grupo específico composto sobretudo por mulheres que, por facilidade de expressão, vou designar como “naturalistas”.

Este grupo é fácil de identificar porque se organiza em torno de um discurso surpreendentemente replicado de forma quase idêntica sobre múltiplos assuntos relacionados com crianças: gravidez, parto, amamentação, alimentação, cuidados médicos, só para citar alguns. A coerência é tão impressionante que arriscaria a designá-la como “dogma naturalista”, construído e perpetuado algures numa fusão entre um grupo religioso, um partido político e uma organização activista. Até aqui tudo bem. Não me inscreveria neste grupo e acho que as visões dogmáticas são sempre as mais fáceis de desmontar mas agrada-me a ideia de mulheres que se organizam para apoiarem outras mulheres; agrada-me a ideia de se partilharem experiências e de, assim, se enriquecer a vivência do próximo; agrada-me a ideia de se procurar colmatar as falhas deixadas por uma estrutura biomédica propensa a desumanizar e a despersonalizar a relação entre os pacientes e os profissionais de saúde.

No entanto, rapidamente se tornou claro para mim o potencial perverso desta narrativa, que, por falta de reflexão, me parece ser ignorado por muitas destas naturalistas. O exemplo mais acabado diz respeito ao parto. É comum surgirem referências a partos “naturais” e a “bionascimentos”. Por mais que tente, não percebo o conceito de bionascimento. A não ser que já façam bebés naquelas impressoras 3D, não estou a ver como é que um nascimento possa ser outra coisa que não bio(lógico)…E imagino sempre uma enfermeira a carimbar a testa do meu filho com a certificação “bio” e um asterisco a dizer “provém de procriação biológica, sem químicos nem aditivos”. É absurdo. Já a noção de parto “natural”, muitas vezes utilizada como sinónimo de parto “normal”, é mais problemática. Primeiro, porque os adjectivos “natural” e “normal” são perigosos. Vemo-los frequentemente noutros tipos de discurso – “é natural e normal uma família ser composta por um homem e uma mulher”, “é natural e normal um homem ser diferente de uma mulher”, etc, etc. Depois, porque tudo o que é “natural” e “normal” é tido como bom, ergo tudo o que não é “natural” nem “normal” é, por exclusão de hipóteses, mau.

 Ora, o que é que nos diz o dogma sobre os partos “naturais” e sobre os “bionascimentos”?

  1. Parirás somente pela vagina;
  2. Resistirás à tentação de pedir epidural;
  3. Não permitirás induções;
  4. Rejeitarás soro com oxitocina;
  5. Não te sujeitarás a episiotomia.

Por outras palavras, um parto “natural”, “normal” e “biológico” é um parto vaginal que ocorre de forma espontânea sem manipulações, intervenções cirúrgicas ou recurso a medicamentos. Fantástico. É o parto ideal. É o parto ideal que é doutrinado, evangelizado e vendido nos cursos, nas conferências e nos livros das naturalistas. É o parto pelo qual todas as mulheres devem lutar. É um direito. É, lá está, o parto bom e, se não for assim, é mau. Pergunta para queijinho: quantas naturalistas tiveram este parto ideal? Todas, muitas, ou quase nenhuma? Ou, sugiro eu, a coisa é suposto ser mais ao estilo bíblico de “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”?

O problema agrava-se substancialmente – e aqui chegamos ao busílis da questão – quando este tipo de discurso acaba por fazer da experiência do parto um reflexo, não só da própria mulher, como da relação que esta terá com o seu filho. Dou-vos um exemplo pessoal: as últimas estimativas de peso do meu filho sugerem que há a hipótese de ser demasiado grande para nascer por parto vaginal e a médica alertou-nos para a possibilidade de ser necessária uma cesariana. Cesariana?! Sacrilégio. A opinião dos membros do grupo das naturalistas sobre essa possibilidade é, como se adivinha, unânime: nem pensar. “As estimativas de peso estão sempre erradas”, “não se podem basear decisões médicas em futurologia”, “o corpo alarga sempre”, “as nossas avós pariam filhos com 5 quilos”, dizem. E rematam com o clássico, “não se deve [preencher com um argumento qualquer], há estudos”.

 Até posso ignorar a prontidão e aparente presunção com que uma naturalista que talvez tenha tirado um curso de doula em quatro fins-de-semana ou tenha lido 3 livros escritos por uma doula que tirou um curso em quatro fins-de-semana contesta a opinião de um obstetra com décadas de formação e experiência. Tenho 12 anos de formação académica na área de História e estou mais do que habituada a que alguém conteste o que eu digo em conversas de café porque viu um documentário qualquer no canal História. Até posso nem questionar como é que se apressam a dar uma resposta tão peremptória sem saberem o meu historial clínico e, pior, sem terem conhecimentos para compreender o meu historial clínico mesmo que o soubessem. Até posso não mencionar a taxa de mortes no parto no tempo dos nossos avós. Até me posso calar quando me lembro que o Trump também diz que “há estudos” quando afirma que o aquecimento global é uma farsa. E, de facto, até há, o que só demonstra que a existência estudos vale o que vale sem uma visão crítica. Mas não concebo que completem a justificação do argumento dizendo, como me disseram a mim, que não devo aceitar que me façam cesariana porque o parto vaginal (“natural” e “normal”) é uma forma de empowerment da mulher e porque as cesarianas não só não permitem esse empowerment como dificultam a criação de um vínculo entre a mãe e a criança. Portanto, se aquela médica com anos de formação e experiência e com conhecimento profundo do meu historial clínico constatar que um parto vaginal pode pôr a minha saúde e a do bebé em risco, temos pena. Vais fazer uma cesariana que te lixas, não te vais apaixonar pelo teu filho e ainda por cima sais de lá menos mulher ou, vá, não tão mulher como as outras.

Esta é a manifestação mais pura do efeito perverso desta narrativa. Na demanda dogmática de promover o parto ideal que garanta mais respeito e melhores condições para as mães e para os seus filhos e que, em última instância, faça das mulheres mais mulheres, facilmente sucede o oposto. Há múltiplas razões que não dependem da nossa vontade para o parto real acabar por ser muito diferente do parto ideal. Corrijo: há múltiplas razões que não dependem da nossa vontade para que muito dificilmente o parto real corresponda ao parto ideal. E o que é que resta? Restam mães com filhos nos braços acabados de nascer decepcionadas e frustradas porque não tiveram o parto ideal que leram nos livros ou que lhes apresentaram nos cursos. Restam mulheres deprimidas porque houve problemas e tiveram que ser induzidas ou parir por cesariana; porque tiveram que receber medicamentos; porque não aguentaram as dores e pediram epidural. Restam mulheres com sentimento de culpa. Com um sentimento de culpa perfeitamente evitável, que não tem a ver com a realidade em si, mas com as expectativas ideais que foram alimentadas.

Não questiono a intenção do discurso naturalista nem a importância de se discutirem muitos dos problemas que denuncia. Mas questiono a falta de consideração pela verdadeira extensão das suas potenciais consequências e a falta de noção da responsabilidade que promover este tipo de discursos implica. Porque se há um parto “natural” então tem que haver um parto “anti-natural”. Porque se há um parto “normal” tem que haver um parto “anormal”. Porque se eu digo a uma mulher que ela é mais mulher, mais empoderada, por ter um parto “natural”, então estou necessariamente a dizer-lhe que ela não é tão mulher, não é tão empoderada, por ter um parto “anti-natural”. E em vez de promover o tal empowerment promovo exactamente o contrário: a “efeminização” ou “desfeminização” da mulher, não por via da sua performance sexual, como seria no caso da emasculação, mas por via da sua performance “procriativa”. Diz-me que tipo de parto tiveste e dir-te-ei quão mulher és. No fundo não é diferente das imagens manipuladas das modelos nas capas de revistas. Se não houver cuidado e reflexão na forma como se articula o discurso, o que se acaba por promover é uma imagem ideal quase impossível de reproduzir. E, pergunto outra vez, o que é que resta?