Só podes amar se a mãe deixar

1981
Eram dez da noite quando recebi uma mensagem: “tens de ver o novo programa da TVI”.

No dia seguinte, foi o que fiz.

Vergonha alheia foi o meu primeiro sentimento. Como mulher e depois como mãe.

Fechei os olhos vezes sem conta com os olhares e comentários a cada nova “candidata“.

Que mundo é este em que vivo? Que mundo é este em que jovens procuram o amor com ajuda das mães?

Que mulheres são estas que se sujeitam aos comentários jocosos e maldosos tanto das mães quanto dos filhos?

Durante mais de trinta anos dos meus quarenta e três lutei contra o preconceito. O que lutei foi em vão? Para mim, não foi.

O que se passou na vida destas mulheres, de várias faixas etárias, para se sujeitarem a estes otários?!

Que homens são estes?!

Que mães são estas?!

Parei de me questionar. Pensei.

Este é o mundo tal e qual.

Fui sujeita a este tipo de julgamento várias vezes. As mulheres estão sujeitas a este tipo de julgamento todos os dias.

Se não sabe cozinhar, não presta.

Se tem filhos, não presta.

Se é divorciada, não presta.

Se tem isto tudo, é puta.

E filho criado com amor não pode casar com uma puta.

“O meu filho é de ouro, não suja as mãos, não cozinha, não fala, não ouve, não pensa pela própria cabeça só pela minha, um anjo, o meu filho.“

São estas mães que destroem os filhos e destroem a própria vida, afinal de conta, elas, mulheres, também podem virar putas.

Quanto a mim, apesar de ser totalmente contra este tipo de programas, espero que contribuam, pelo menos, para que estas mães não se gostem de ver naquele papel ridículo.

Quanto a mim, serei puta toda a minha vida aos olhos destas mães. Elas que guardem os filhos e mantenham o quarto em casa, pois os filhos lá estarão por toda a vida.

Bem-vindos ao mundo real da maioria das mulheres.

Por cada mulher exposta – serei feminista.

Por cada mulher ostracizada – serei feminista.

Por cada mulher que escolha pelo filho – serei puta e serei sempre feminista.

O amor não é isto.

O amor, o amor é outra coisa.