SÓ 15 MINUTINHOS

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Há uma espécie de culpa na confissão.
Não é espécie. Há mesmo. A culpa. A culpa de não fazer isso com a facilidade
dos inatos ou a felicidade constante dos iluminados. Há uma total culpa no
acto. A moral cristã e o estalo social que se sente porque não subimos as
escadas com a sofreguidão do amor. Por isso, calamo-nos. A quem dizer que,
quando chegamos a casa e estacionamos o carro ficamos ali uns 15 minutos a
respirar… Só a respirar. A encher o peito de golfadas de oxigénio. A apneia
do dia e o cansaço do corpo das braçadas constantes. De cá, para lá. De cá,
para lá. Ficamos ali. São só 15 minutinhos. A respirar. Dentro do carro. Na garagem.
Na rua, a ver a vida passar, a correr, a atravessar. A ler as mensagens adiadas
no telemóvel. Os emails e as fotografias felizes das rotinas incríveis dos
outros. Sentadas. Frente a casa. A encher o pulmão e a esvaziar a cabeça. Não
saberão que demorámos só mais 15 minutinhos. Que chegámos mais cedo e
gastámos aquele quarto de hora trancadas no carro. Sozinhas. Porque nos esperam
jantares e banhos. E louças e conversas. Trabalhos de casa e roupa para
estender. O barulho dos dias e os brinquedos espalhados pela casa. Uma febre e
duas otites. São só 15 minutos. A esticar braços e a arrumar papéis na mala,
talões e folhas espalhadas. Brincos esquecidos e lenços que se amontoam. Mais 5
minutos para a chamada que ficou por fazer. E respirar. As escadas são subidas
com o peso da culpa e a leveza da limpeza. A porta é aberta com o segredo
selado de quem espera não ter sido visto da janela. Os abraços e beijos são
dados com a promessa da compensação. Foram só 15 minutos. Valeram por tanto.

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