SIM, FUI TRAÍDA

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Não gosto de falar do assunto. Não gosto de reviver o assunto. Não porque me magoa ou porque deixou mazelas, mas apenas porque vive lá atrás. Indiferente. Passado. Não gosto particularmente de olhar para trás. Mas, raras vezes, precisamos de lá ir buscar lições.

Sim, fui traída. Sim, tive uma relação que não resultou. Sim, sofri. Muito. As pessoas especulam, opinam, tiram conclusões. Sabem sempre o que deves saber, fazer, escrever. A quem te deves dirigir. O que deves esquecer ou o caminho mais certo a seguir. Porém, na realidade, elas sabem muito pouco. Elas não sabem o que é partir tudo à tua volta num misto de loucura e tristeza que cega. Elas não sabem o que é perder a autoestima tão rapidamente que o teu corpo parece ser feito de vidro estilhaçado. Agora parte-se um braço, a seguir uma perna. Elas não sabem o que é ver desmoronar sonhos dos encantados ou simplesmente constatar o óbvio: aquilo não ia resultar e já tinha morrido antes de alguém o matar. Elas, talvez até saibam, mas sabem os problemas delas, não os teus.

O primeiro julgamento é meu. Foi meu. Não contei, não revelei, não censurei. Passou a loucura e a raiva. Ficou o pesar. Lúcida, decidi tentar. Não consegui. Decidi desistir. Fui eu quem sentenciou e fui eu quem tomou resoluções. Não os outros. Por isso, só depois souberam e só depois opinaram, odiaram, fizeram os juízos que vivem dentro de cada cabeça e que tão bem sabemos fazer sobre os outros. É sempre mais fácil aconselhar e criticar quem vive à nossa volta, como num livro, num filme, onde só assistimos e nunca participamos. A culpa era dele. A culpa era minha. Ouvi de alguém próximo «Isso já era de se esperar!». Não, não era. Nunca esperamos, mas a realidade é que acontece. E muda tudo.

Não tenho vergonha. Não fui a única, nem hei-de ser. Não guardo rancor, mágoa ou tristeza. Agradeço a libertação e a constatação, mais do que evidente, de que a minha vida não passava por ali. O método é duvidoso, mas o final foi o mais feliz. Vivemos tantas vezes aprisionados em relações onde não nos construímos, onde não evoluímos e onde, principalmente, não nos conhecemos. Olhando para trás, percebo que era inevitável. Que a paixão tinha morrido. Que a amizade, por vezes, se confunde com amor. Não era amor. Não podia ser. Não sei o que era, mas lamento profundamente que nos tenha transformado, a ambos, em coisas que não somos e que acabamos por odiar. Odiei-me por não saber erguer-me e ter coragem de mudar. Odiei-o por me ter feito sentir preterida e, principalmente, traída enquanto cúmplice, companheira e amiga.

Não tenho vergonha e ter sido traída. Trouxe-me tantas lágrimas na altura como conquistas pessoais posteriores. Cuidei mais de mim. Fiz muito mais e melhor por mim. Conheci mais pessoas interessantes, dediquei-me mais às que já conhecia. Aprendi a dar mais amor e valor aos outros. Aprendi a não ser egoísta em tanto e a saber ouvir, ceder. É preciso bater com a cabeça para aprender? Sim, é. Não sou a vítima-traída que chora, insulta, tece comentários à «outra» e se martiriza eternamente. Sou a traída que venceu, que se superou, que não guarda rancor e que, incrivelmente para tantos, ainda consegue agradecer. Realmente a dor de hoje pode ser mesmo irrisória amanhã.

Por vezes, e é só por isso que escrevo este texto, achamos naquele instante que tudo perdeu o sentido. Que ficar sozinho é tão medonho como estar num quarto escuro aos cinco anos. Que precisamos mesmo de alguém ao nosso lado para nos sentirmos mulheres. Ou homens. Ou completos. Ou felizes. Não. Precisamos de nós e de amores que nos tragam paz. Sobretudo, paz. Precisamos de encarar as más escolhas de frente, orientá-las no sentido certo e tirar disso um propósito, fundamento e objectivos futuros. É difícil? Claro que é. Tivesse eu ouvido isto enquanto partia os pratos e os copos. Mas, hoje, com a distância que me permite fazer os tais juízos que temos que considerar, e que me cabem a mim e não aos outros, consigo perceber que ser traída foi a melhor coisa que me aconteceu.

Sim, fui traída. E sim, ainda bem.