SIC e TVI estreiam: QUEM QUER CASAR COM UM PASPALHO?

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Basicamente é isto:

Bons machos alfa, procuram senhora ou menina para casar, com as seguintes
características:

  1. Seja bem parecida (isto é, tenha umas maminhas que se vejam mas não estejam muito à mostra, tenha uma silhueta invejável tipo pinup e uns dentes direitos e branquinhos); factor de exclusão;
  2. Saiba cozinhar (implícito – lavar, estender e passar, que os machos alfa são de “bom alimento” e, por isso, são grandes e têm músculos para realçar nas camisolas cheirosas e bem engomadas pela mamã ou, na falta desta, pela mulher); factor de exclusão ao quadrado;
  3. Não seja ciumenta (até porque eles gostam de ter muitas amigas e sair muitas vezes para dar um rolé);
  4. Que seja séria (o que quer dizer: não tenha muitos amigos, nem goste de sair muitas vezes para dar um rolé);
  5. Tenha tido poucos namorados e apenas relações longas (o que quer dizer que gosta de estabilidade e, principalmente, que tem muita paciência para aturar merdas durante muito tempo);
  6. Que não tenha sido traída (porque se foi, alguma coisa deve ter feito para merecer um adorno na cabeça);
  7. Seja aventureira (isto é: goste de andar a cavalo e de dar umas voltinhas de Jipe na quinta de um Agro-Beto e passar em cima de pocinhas de lama. Tudo o que seja mais radical que isso…já é para malucas);
  8. Não esteja desempregada (embora vá ter de trabalhar de cozinheira, lavadeira, engomadeira e babbysitter em casa, tem de trazer algum incoming e pagar a sua estadia. Que os machos procuram alguém que os ajude e não uma caça tesouros);
  9. Que adore a sogra. Factor de exclusão ao cubo.

Parece uma piada. Antes fosse. É o argumento do
programa de domingo à noite dos dois canais mais vistos em Portugal. A SIC pôs
várias mulheres a competir para agradar a um macho. A TVI pôs várias mulheres a
competir para agradar à mamã de um macho. Os machos e as mamãs fazem as
entrevistas (porque elas não perceberam mas, pelos vistos, estão a ser
contratadas para sopeiras) e conforme as suas prestações são aprovadas ou
dispensadas.

A SIC e a TVI acharam uma ideia interessante
utilizar o seu horário nobre para dizer a todas as meninas que estão em casa a
assistir TV que têm de saber cozinhar para serem merecedoras de marido e, que
se fugirem dos padrões acima mencionados vão ser ridicularizadas como foram
algumas das concorrentes dos programas. A SIC e a TVI querem, como todos os
machistas, que as meninas cresçam a achar que têm de se esgatanhar entre elas
para obter a atenção de um Macho e que devem continuar a cingir-se ao papel de
“lady na mesa, louca na cama…e serva na cozinha”.

Desta forma, estes programas apresentam as várias
candidatas como se se tratassem de peças encomendadas de uma loja online em que,
aquelas que preenchem os requisitos, podem ser utilizadas, enquanto que as que
apresentam defeito, são recambiadas com selo de devolução. Uma vergonha.

É de lamentar que, numa época em que tanto se fala
de igualdade, de movimentos de empoderamento da mulher e de luta contra o
machismo, a televisão portuguesa esteja disposta a mandar tudo para escanteio
em troca de audiências. Devemos perguntar à SIC, que tanto mérito teve pela
emissão do programa “E se fosse contigo?” por quanto é que vendeu os seus
valores para vir agora promover um formato que representa o total oposto do que
defendia.

Quando, em menos de dois meses e meio morrem em
Portugal 12 mulheres às mãos dos maridos, a SIC e a TVI vêm conspurcar ainda
mais a sociedade com este machismo retrógrado de “o homem na poltrona, a mulher
no tacho”. Tão melhor empregue tinha sido o tempo e o dinheiro a fazer um
programa onde aqueles filhinhos da mamã fossem aprender a cozinhar e a lavar as
próprias cuecas. Agora a sério: juro que fazer massa com atum não é difícil.  

E para todas as pessoas que estão a dizer “o
programa só existe porque as mulheres se inscreveram e estão lá porque
querem!”: Elas não estão lá SÓ “porque querem”. Elas são as mesmas meninas que
crescem a ver aos domingos à noite programas destes. Programas machistas.


E machismo mata.

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