SER POBRE

2511

“Só os Pobres têm o espaço inteiro para encontrar a sua Pátria”, acaba assim um livro que escrevi.

A alegoria não é simples no sentir e no ser. Trata-se do imperativo que sangra da única razão de ser de se acordar e de se prometer não desistir e tentar acordar no dia seguinte.

Existir enquanto formos o outro, enquanto quisermos, por sermos o outro, fazer por que mude alguma coisa, um grão de areia que seja.

Não querer outro retorno, a nossa morte que seja absoluta, como no poema do Manuel Bandeira – “Morrer tão completamente/Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?…” /Morrer mais completamente ainda, – Sem deixar sequer esse nome”.

Ser Pobre. Ser Pobre por sermos apenas o que somos no outro e o que significamos para o outro.

Ser Pobre como resultado inverso à brutalidade e à integralidade da entrega à palavra tu. Sabermos que no dia em que só tivermos significado para nós próprios, nesse dia, seremos já sombras, as piores das sombras, as sombras que vagueiam cheias de nada, porque andam por aí sem corpo, planta, rocha, prédio ou esquina para se formarem.

Nesse dia, estaremos mais enterrados do que morte, porque a morte nunca é indefinida nem opaca, a vida enfiada numa sombra que vagueia cheia de nada é a vida de quem abdicou de ser Pobre, porque abdicou de ser o outro.

Ser Pobre é a certeza, que tem no sofrimento da solidão que lhe vem associada, que alguma coisa está a valer a pena. É por isso um imperativo. Uma nudez consequente. A roupa fica no outro em que nos tornamos em cada segundo, de cada hora, de cada dia.

De noite, temos de olhar para nós, ter a certeza da tal da nudez, ter um saco de vidas às costas, ter rostos a passearem na nossa boca a dizerem-nos que somos para eles alguém e, então, mesmo chorando, respirar fundo porque conseguimos com a grandeza da entrega ficarmos absolutamente Pobres.

Dizer em cada dia as frases dos poetas que sabem disto tudo, dizer com a Margarida Losa que “ontem fui ao encontro do que diariamente me traz a vida/ os outros, desentendidos outros/ as coisas, odiadas coisas/ e entreguei-me toda nua/ esperando alguns humanos frutos/Hoje sigo recolhida/púdica/muito metida comigo/” e depois aguentar o peso desse vazio de nos metermos só connosco e fazer a escolha:

A pobreza que é a pele da grandeza de nada mais ter significado do que o outro;

A sombra de escolher expulsar o outro e passar o significado da vida para nós apenas e, então, sermos a sombra pior que qualquer morte, opaca e para sempre indefinida.

Quero conseguir morrer dizendo sou uma Pobre.