Sensibilidade e bom senso

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Hoje quero falar sobre a sensibilidade e o bom senso de Diogo Torres e João Macedo, que desconheço, e que não apresentarei com imagens de outros homens despidos ou, por exemplo, a praticar cópula anal ou sexo oral, para os representar. Parecer-me-ia falta de sensibilidade e de extremo mau gosto.

Mas os cavalheiros citados são os seres que assinaram a peça da SIC, emitida a 17 de Maio no Jornal da Noite, na versão aqui disponibilizada, mais tarde corrigida pela estação que, apesar disso, não teve nem a sensibilidade nem o bom senso de se retratar pedindo desculpa à candidata ao parlamento europeu aqui em causa, e também, a mais de metade da população portuguesa que é constituída por mulheres e a uma outra parte da população nacional, que é do sexo masculino, mas que não faz da grunhisse uma opção de vida.

Se não tivesse havido falta de sensibilidade e de bom senso na peça primeiramente exibida, num noticiário apresentado por um jornalista que tem publicamente assumido posições contra a discriminação e a violência de género, como é que se explica que a mesma tenha sido depois reeditada, sendo-lhe retirado o final grosseiro sem qualquer espécie de sensibilidade ou de bom senso, em que num off, com voz lúbrica, enquanto se vêem em pormenor imagens de calendários (vários) com mulheres nuas  em poses provocantes (dependerá daquilo que cada um considerar provocante, mas digamos que sim, que são provocantes) se ouve: “… local quase preparado para receber a candidata do bloco”. Fez-me a minha sensibilidade notar que houve ênfase no “quase”… e sem qualquer espécie de bom senso, mas não encontrando outra explicação para o caso, ponderei se aquele “quase” se referiria ao facto da candidata em causa se apresentar vestida, nunca tendo posado para uma publicação do género, e haver por parte destes jornalistas a falta de gosto e de bom senso de esperarem que a futura deputada, por ser mulher e bonita, se despisse. Seria esse o “quase” que não permitia que a empresa estivesse preparada para a receber?

Seria uma piada, uma graça, que sem sensibilidade nem bom senso apresenta uma peça sobre um assunto sério, as eleições europeias são um assunto sério, sobre uma candidata do sexo feminino, representando-a com corpetes e cintos de ligas porque ela é sexy e é mulher, como dantes lhe associariam o Livro de Pantagruel ou a Enciclopédia da Cozinha Portuguesa, muito honradamente assinada por Maria de Lourdes Modesto?

Dir-lhes-á, a estes seres a quem a família pôs o nome Diogo Torres e João Macedo, a sua sensibilidade e o seu bom senso que o que fizeram estava bem?

Dir-lhes-á a sua sensibilidade e o seu bom senso que o tema não era os calendários Pirelli nem Emanuel mas uma candidata que, naturalmente eleita, não representará só mamas e rabos que os cavalheiros que subscrevem a reportagem julgam representar no seu todo uma mulher?

Serão estes dois mesmos cavalheiros encarregues numa, infelizmente provável, próxima ocasião em que haja um crime de violência doméstica, de fazer uma reportagem sobre isso para a SIC e ilustrá-la-ão da mesma forma? Se a “protagonista” for mulher, a partir daqui, deste ponto de falta de sensibilidade e de bom senso, quase já nem vejo por que não.

E se a mãe ou a irmã de um dos cavalheiros supra citados for, por exemplo, nomeada para um cargo de responsabilidade ou ganhar um prémio de investigação científica e sobre elas for feita uma reportagem, usarão estes sensíveis repórteres as mesmas fotos, ou procurarão outras ainda mais explícitas? Sem nu frontal, parece-me até pouco. Fraquinho.

E se os cavalheiros não tivessem eles próprios fraqueza no raciocínio, talvez pudessem ter a sensibilidade e o bom senso de perceber que é com reportagens abjectas como esta que se naturalizam comportamentos hediondos sobre as mulheres e depois, ai Jesus, que são só os crentes de Alá que tratam mal as mamas e os rabos que reclamam só como seus.

Não terão os cavalheiros supra citados sensibilidade, bom senso… ou só um ou dois dedos de testa para compreender que um dos problemas em causa nestas eleições, e no mundo aliás, tem relação com a discriminação contra as meninas e as mulheres, estando a luta contra essa discriminação consignada até no 5º Objectivo do Desenvolvimento Sustentável?

Não terão os cavalheiros em causa, e a estação televisiva que lhes cauciona as reportagens, a noção de que o que fizeram é estúpido, é desrespeitador e ofensivo? E não é por vermos corpos nus de mulheres… é porque o assunto em causa não era a apresentação de uma actriz de filmes pornográficos, mas de uma candidata a representar o país (as mães, as irmãs, as filhas e as mulheres dos cavalheiros já mencionados incluídas).

Será assim tão difícil compreender como é que, apenas com um bocadinho de sensibilidade e de bom senso, poderíamos todos viver melhor?

Mas não fiquem as minhas palavras só entregues aos dois gentleman citados… agiram com dolo mas com a cumplicidade dos editores e responsáveis pelos espaços de informação daquele canal televisivo. E que não haja engano: aqui, a culpa nem será deles que só não têm sensibilidade e bom senso, mas de quem, acima deles, não dá o exemplo assumindo o erro grave e pedindo desculpa por ele.

Que vergonha!

Que vergonha SIC!