SE PERDERMOS, QUE SE FODA!

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Nem sempre gostei do Ronaldo.

Quando ele era um miúdo a jogar à bola nos intervalos na escola de Telheiras, não conhecia a história dele. Talvez se soubesse que estava sozinho no continente, que deixou a família em busca de um sonho, que passava os intervalos a treinar para atingir os seus objectivos… talvez tivesse sido diferente. Talvez me tivesse aproximado, talvez tivéssemos sido amigos.

Não sei.

A verdade é que, enquanto jovem, o Ronaldo passou-me completamente ao lado. Lembro-me vagamente dele, uns anos mais velho do que eu, sempre com uma bola nos pés. Hoje percebo porquê. Hoje conheço a história e não consigo deixar de sorrir quando me lembro daquele menino com a bola no pé e os sonhos no bolso. Hoje o nome Cristiano Ronaldo está na boca do mundo, para o melhor e para o pior. Não deve ser fácil, mas pelos vistos ele nunca soube o que eram facilidades na vida.

Ao que parece, a nova polémica é o “Se perdermos, que se foda!” que o Ronaldo disse ao Moutinho  para o convencer a marcar. Depois da história do microfone, são estas palavras que incendeiam o país. É só gente a criticar o vernáculo, a leveza com que se admite que perder um jogo não é o fim do mundo, a atitude prepotente… Sei lá…

A minha opinião vale pouco, mas aqui fica.

Quanto ao vernáculo, já sabem o que penso: os Haters que se fodam.

Quanto ao Ronaldo só tenho isto a dizer-lhe: se já simpatizava contigo, se havia ainda mais respeito que pudesses ganhar da minha parte… com estas palavras destruíste qualquer dúvida, qualquer vestígio de incerteza, qualquer preconceito que pudesse ter contra ti.

É que enquanto os outros te vêem a cagar para um jogo, eu vejo-te a ajudar um amigo. Vejo-te a dizer-lhe que confias nele e nas suas capacidades mas, acima de tudo, vejo-te com as prioridades certas. Vejo-te a dizer-lhe “És mais importante que um jogo”. E é. Cada um de vocês, aí no campo, cada um de nós aqui fora… todos somos maiores que um jogo. Todos queremos ganhar, todos sonhamos com isso, mas, no fundo, ganhar não é o mais importante. O mais importante é ser humano, é saber relativizar as coisas, é ter a capacidade de esquecer o sonho para ajudar alguém.

Este é o capitão que quero em frente da selecção do meu país. Esta é a imagem que quero mostrar ao mundo.

Quanto ao resto… Não percebo nada de futebol, mas sei que neste caso só há uma opção certa: deixem o Moutinho marcar.

E se perdermos?

Se perdermos, que se foda.