“Sarao Drag”: O espaço que discute o universo LGBTIQ+

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Celebrando o Pride (orgulho), é necessário falar do trabalho que têm feito as novas gerações na luta pela igualdade e pela divulgação daquele que é o universo queer.

Em Barcelona, cidade onde vivo e da qual já falei algumas vezes aqui na plataforma Capazes, um coletivo de jovens – Futuroa – produz a cada dois/três meses um evento chamado Sarao Drag, que é um concurso drag bastante diferente daqueles que estamos habituados. Trata-se de um concurso, sim, mas ,em paralelo, questiona as normas, os conceitos de drag e de género, tentando ir um pouco além do drag tradicional – o típico exemplo: homem que faz drag de mulher. Simultaneamente, é uma festa na qual os candidatxs a concurso, a organização e o público têm espaço e liberdade para se expressarem da forma que querem, numa celebração de “amor entre glitter, corpos e euforia convertida em grito”, como garante a Futuroa.

Como evento inclusivo de que se trata, há um protocolo de segurança, que conflui na palavra Respeito. As regras são simples: não se aceitam comportamentos discriminatórios nem nenhum tipo de agressão dirigida a qualquer pessoa ou coletivo. E sim, a organização adverte: uma agressão dá-se quando uma pessoa se sente agredida.

Porque é que é necessário existir um momento e um espaço onde não só se celebre a diversidade como nos questionemos acerca de coisas que daríamos por garantidas? As respostas são diversas: não só é necessário questionar-se aquilo que temos e damos garantido como “norma”, como afinal de contas o que é que é a norma? Quem a constrói? Porque temos que seguir uma norma, dentro da pluralidade que é o universo LGBTIQ+? Por outro lado, a reflexão acerca do conceito de drag, que não só se alterou bastante desde a sua criação, como na grande maioria dos casos ainda é uma coisa maioritariamente feita por homens. É necessário dar espaço às mulheres – e demais identidades de género – um espaço onde possam apresentar aquilo que têm como a sua forma de fazer drag – e que não tem que passar por vestir um vestido, pôr uma peruca, fazer uma boa maquilhagem e um lipsync de uma qualquer canção da Mariah Carey ou Whitney Houston. Este espaço é necessário, na medida em que estxs ainda estão pouco recetivas em apresentar-se em público, pois os homens levam décadas de domínio e monopólio do universo e cena drag.

Quanto ao debate acerca do conceito de género, que tantas dúvidas continua a suscitar dúvidas entre algumas pessoas, não há porque nos sentirmos identificados apenas como homem ou mulher, se não for isso que sentimos na verdade. Não há porque não vestir uma saia – se formos homens – se nos apetecer ou fazer male drag, se se for mulher. Não há porque ter problemas em assumir que não temos género, que o nosso género é fluído ou que nos encontramos no meio dos dois géneros e que não nos conseguimos identificar com nenhum deles. Somos mais que XX ou XY, pelo que temos que estar despertos para outras realidades e aceitá-las ao nosso redor, questionando sempre o porquê quando decidimos não aceitar estas realidades.

Por fim, a salvaguarda de que o Sarao Drag é um espaço de expressão livre e de segurança, onde guardamos sempre bons momentos e memórias, onde faz sentido sair da nossa zona de conforto e arriscar. Arriscar-nos a ser diferentes, a ser nós mesmos, a ser livres e a expressarmos a nossa individualidade sem ter medo de olhares, comentários ou normas que nos são impostas por outros e que não nos permitem viver a nossa própria liberdade.