Sandra, Helena e Lara

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Degolou a sogra, estrangulou a filha e acabou com a vida da ex-companheira.

No dia 4, a Sandra teve duas missas para assistir ao final do dia. Uma, pela dona Helena, outra pela pequena Lara. Quatro meses depois, já não nos lembramos dos nomes. Só os associamos ao recordar o que lhes aconteceu.

Há quatro meses, em menos de 24 horas, três mulheres morreram. Duas foram assassinadas. À terceira foi roubada a alma, a vontade de viver, a motivação para continuar.

Não sei como se sobrevive a isso. Não sei como se descobre que o homem com quem vivemos, afinal, não passa de uma besta que acha que tudo se resolve ao murro e ao pontapé. Não sei como se interioriza que temos um laço tão definitivo com uma pessoa dessas, como um filho. Não sei como se diz a uma pessoa destas que a união acabou e que cada um segue a sua vida. Não sei o pânico que se vive quando percebemos que uma viela escura de uma grande cidade pode ser mais segura do que a nossa própria casa. Não sei a dimensão do sofrimento e da loucura que devemos alcançar quando percebemos que, mais do que as nódoas negras que nos deixaram no corpo, ficou o enorme vazio ao enterrar uma mãe e uma filha, mortas às mãos de quem nos devia ajudar a proteger este núcleo.

Há quatro meses, a esmagadora maioria de nós ficou com um nó na garganta ao perceber a brutalidade que se pode cometer contra alguém. Desde então, pouco mais se falou sobre isto. Pouco deverá ter mudado. Talvez ainda haja, no Ministério Público, quem desvalorize queixas de violência doméstica. Talvez ainda haja juízes e instituições que considerem irrelevante um pai, com guarda partilhada de uma menor, não ter uma casa onde morar.

Muito provavelmente, nos dias subsequentes à notícia, outras mulheres terão sido agredidas pelos marido e, se, entre murros e pontapés, ousaram dizer que fariam queixa ou que saíram de casa, terão ouvido como ameaça o que aconteceu à Sandra.

O que sei é que, talvez, isto tenha sido mais do que uma vingança contra uma ex-companheira. Como entretanto nada parece ter mudado, isto poderá ser visto para outras tantas “Sandras” como um aviso. Um aviso para ficarem quietas e caladas. Porque, quatro meses depois, acredito que haja “Sandras” que prefiram sobreviver à violência diária do que tentarem viver depois da tortura de terem enterrado uma mãe degolada e uma filha asfixiada. E pensar nestas mulheres que (ainda) não conhecemos também nos deveria deixar com um nó na garganta.