Roupa feliz para crianças felizes (ou a história de como se consegue transformar a palavra “feliz” num insulto)

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A polémica que para aí anda sobre roupas de criança é das coisas mais estúpidas que vi nos últimos tempos.

Quando soube da notícia achei que poderia tratar-se de uma colecção ousada, com saias unissexo, roupa rosa e afins. Só que não, a colecção é  mesmo composta por aquilo que é aceite universalmente como unissexo. Há cores garridas, sim, mas nada que possa ser considerado impróprio até pelas mentes mais quadradas. 

O termo unissexo sempre existiu. Há roupa unissexo desde que a roupa existe, há cabeleireiros unissexo… e não vejo ninguém a boicotar um negócio por causa disso.

Sabem porquê?

Porque é ridículo boicotar um negócio só porque pretende ter clientes de ambos os sexos.  

Mais, qualquer criança dos anos 80 com primos ou irmãos mais velhos, usou aqueles fatos de treino brilhantes abomináveis, passados de geração em geração. O meu irmão usou roupa minha, assim como todos os meus primos. A minha filha usou roupa do meu sobrinho e o meu próximo filho há-de usar roupa dela. A vida é mesmo assim. E ainda bem,  porque este planeta não tem recursos para continuarmos a produzir a quantidade de lixo absurda que produzimos. 

Uma peça de roupa é uma peça de roupa. Serve para cobrir e aquecer quem a veste. Um casaco aquece da mesma forma um menino e uma menina e antes da puberdade não há grandes diferenças entre o tronco de uns e de outros, por isso a diferença no corte não é uma questão.

Qual é o problema, então?

O problema é que as pessoas já nem têm noção daquilo que dizem. O problema é que, sob a máscara da pseudo liberdade de expressão, disparam para todos os lados e confundem discurso de ódio com opinião. O problema é que há quem esteja cego, e nessa cegueira paranóica sinta ataques à sua integridade vindos de todo o lado.

O maior problema é que as pessoas não vivem nem deixam viver. Preferem sentir-se insultadas por uma colecção para meninos e meninas se chamar “feliz”. Porque, já se sabe, a felicidade das crianças é secundária: o que importa é que elas se encaixem perfeitamente nas gavetinhas que os adultos e a sociedade criam para elas. O que importa é que continuem a separar-se por meninos e meninas, que uns trabalhem e usem roupas confortáveis e outras cuidem do lar e usem roupas justas que picam e mostram as cuecas se decidirem trepar a uma árvore.  Sim, porque desde a infância as meninas lidam com a exposição do corpo, enquanto para os meninos essa nem sequer é uma questão. 

Se querem a minha opinião, a roupa é toda unissexo, porque a roupa serve para vestir e fazer quem a veste feliz.

Tudo o resto são problemas que vivem apenas nas nossas cabeças.

Ah, e já agora: os vossos filhos vão romper e sujar de terra a roupa e os sapatos novos em folha, independentemente de serem unissexo ou não. Por isso mais vale relaxar e guardar a indignação para coisas realmente graves, como o facto de existirem crianças sem ter o que vestir.

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