Salv@s pela residência alternada!

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Agora que a quarentena pode estar perto do seu fim (ou, como parece mais certo e mais sensato, do seu aliviamento progressivo e transição moderada para a normalidade possível), e que podemos começar, coletivamente, a ver uma pequena luz no fundo de um túnel de angústia e incerteza, talvez seja hora de fazer o balanço de algumas lições que podemos vir a retirar desta pandemia.

É em tempos difíceis que (por vezes) aprendemos a dar valor a certas formas de vida que nos pareciam inaceitáveis ou inconcebíveis. A vivência em família não foi construída num contexto em que as famílias estavam 24h sobre 24h fechadas num pequeno espaço habitacional, momentos de descompressão ou períodos de ausência. É compreensível que, por muito que amem a vossa família, estejam um bocadinho fart@s e completamente exaust@s. Física e mentalmente. É assim possível que a quarentena tenha vindo mostrar a muitas famílias portuguesas o grande valor que pode existir num modelo familiar de residência alternada.

Antes de continuar, porém, deixo um aviso: este texto é dirigido apenas às famílias minimamente funcionais, separadas, divorciadas, em separação, nunca antes unidas, etc., em que pai e mãe (pai e pai, mãe e mãe) sejam capazes de um mínimo de racionalidade e diálogo, estejam ambos com mínimos de sanidade mental, nenhum deles seja agressor/a doméstico, tenham condições para executar a residência alternada (vivam relativamente perto) e queiram ambos o melhor para os seus filhos. A residência alternada é a melhor solução para as crianças quando estes e outros requisitos estejam preenchidos (ver melhor, aqui). Não é sempre a melhor solução, não é a melhor solução para todas as famílias e não pode ser solução para casos em que haja risco para as crianças. Neste texto vou deixar as patologias de parte e falar da normalidade desejável (e real, felizmente, para muitas famílias) em tempos de pandemia.

Para quem tem vários filhos em idade escolar, principalmente se tiverem menos de 12 anos, a quarentena não tem sido fácil. Acreditem, eu sinto o vosso desespero (nunca houve momento em que mais me congratulei por ter parado após o primeiro filho, desculpem lá o desabafo).  Mas, é certo, não consigo sequer imaginar o esforço que fazem para manterem o teletrabalho e acompanharem 2, 3, 4 ou mais crianças em telescola. Crianças pequenas que estavam habituadas a passar grande parte do dia a correr e a brincar na escola. Crianças não tão pequenas que estavam habituadas a passar grande parte do dia com os amigos. Adolescentes com as hormonas em fúria, que Deus sabe o que faziam com o seu dia, fechados em casa. Todos e todas agora fechad@s em casa, há mais de 30 dias. Sem forma de libertar energia, sem amigos, sem encontros sociais, sem festas. Mas com escola na mesma.

Parece o cenário de um romance distópico, daqueles em que, de repente, todos os adultos desaparecem da sociedade e as crianças ficam entregues a si mesmas. Só que é ainda pior. Os adultos ficaram, estão fechados em casa com as crianças (e os adolescentes, meu Deus!), e não podem sair. Alguns de vocês estão fechados em pequenos apartamentos e devem estar a uns segundos de cometer um crime se vos prometerem uma cela individual num qualquer estabelecimento prisional (agora com mais quartos vagos). É compreensível, não se sintam mal. Calma, respirem, fechem-se na casa-de-banho (se não tiver sido convertida em escritório/sala de aula de alguém) e contem até 100. Às vezes resulta.

Para além das dificuldades logísticas – “como é que desencanto 4 computadores para podermos trabalhar e «ir à escola» todos ao mesmo tempo?”; ou “como é que faço esta teleconferência com uma internet que, por excesso de tráfego, parece as ligações que tínhamos nos anos 90?” (by the way, o Governo devia criar uma rúbrica especial para computadores, acessórios e pacotes de internet para famílias numerosas este ano); e, ainda “o meu apartamento não foi pensado para servir de colégio privado para uma equipa de voleibol!”  – há ainda que garantir que há comida em casa, preparar refeições, limpar a casa (por causa do Corona, claro) e ir lavando os pijamas de 3 em 3 dias. (As normas do Estado de Emergência deviam ter previsto soluções para cuidadores de crianças pequenas, já que, principalmente quando são várias, não é tarefa compatível com o tele-trabalho.)

As famílias em quarentena enfrentam sérios problemas de gestão de tempo (e da sanidade mental). E são problemas desiguais, já que tem caído sobre as mulheres a responsabilidade de gerirem, muitas vezes sozinhas (porque estão sozinhas com as crianças ou porque os companheiros estão a trabalhar fora de casa), o seu teletrabalho e a escola dos filhos. Sei que há mulheres a acordar às 5 da manhã para poderem fazer o seu trabalho acumulado, já que durante o dia estão quase integralmente dedicadas à supervisão dos filhos. E sei que há mulheres à beira de um esgotamento nervoso, muitas.

Mas mesmo quando há igualdade e distribuição de tarefas, como é que se espera que uma família – pai e mãe, mãe e mãe, pai e pai – consiga manter o seu teletrabalho e, simultaneamente, tomar conta de um bebé, de uma criança de 2 anos e acompanhar a telescola de outra criança de 8 anos? Uma criança de 2 anos fechada em casa é como um Gremlin fora de controlo (para quem não percebeu a referência a este filme de culto dos anos 80, vejam aqui): não para quieta, temos de andar constantemente atrás dela e se fecharmos os olhos por 5 minutos destrói-nos a casa ou come-nos o animal doméstico. O único teletrabalho compatível com isto é o de “Youtuber”, e todos os vídeos passam a ser daqueles que nos fazem rir mas que também nos dão imensa pena da/o protagonista.

Se estou cansada – e angustiada – só de escrever estas linhas, nem quero imaginar o que seja viver esta realidade todos os dias. Sim, as crianças são também uns amores, são fofinhas, dão-nos beijinhos e dizem que gostam muito de nós (até chegarem à adolescência, depois ficam sempre em modo Gremlin descontrolado). Mas isso são 5 minutos em 24 horas! E as outras 23h55 horas?

No meio deste horror que devia ser distópico, mas é bem real, algumas famílias são mais afortunadas. Alguns de vós foram abençoados com o dom da premonição e, antes de tudo isto começar, separaram-se e estipularam residência alternada. As vantagens da residência alternada em tempos de quarentena não se bastam aos 7 dias de pausa no horror distópico. São menos refeições, menos idas ao supermercado, menos roupa para lavar. E alguém tem de ir entregar e levar as crianças à residência alternada. Ou seja, há mais um pretexto para sair de casa e ir passear. Sei de pais/mães que aproveitam as saídas para dar um passeio (de carro) na marginal, para ver o rio, etc. E há ainda uma outra vantagem: quando as crianças regressam, têm novidades para contar. Como não passaram 24/24 horas fechados na vossa casa têm assuntos novos de que falar, histórias, piadas, coisas que viveram longe de vós e que dão para alimentar toda uma nova semana de coscuvilhice.

A residência alternada pode ser uma das grandes vencedoras desta quarentena/20. Tenho a certeza de que muitos casais que vivem felizes juntos estão agora mortos de inveja dos amigos divorciados (os infelizes estão de certeza).

Em suma, para os casais que cumprem os requisitos e resistiam ou resistem ainda à residência alternada, aproveitem esta quarentena para refletir nisto: a essência da família não é a tolerância à convivência constante, é a boa distribuição de tarefas. A família surge como uma forma de garantir a sobrevivência a partir da divisão de tarefas, e não porque estavam todos juntos, todo o dia, todos os dias. Ser família é compreender a partilha e a divisão. Se em quarentena a residência alternada é, pelo menos, um alívio intermitente de uma tremenda pressão familiar, espero que, para lá da quarentena, as famílias portuguesas possam ver na residência alternada a solução mais equilibrada para o bem-estar familiar constante de tod@s.

Quanto aos casais que vivem felizes juntos, não sei o que vos diga, olhem, rezem pela vacina!

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