Reflexões sobre o desemprego durante a Pandemia

740
A pandemia da Covid-19 vem trazendo incontáveis obstáculos ao redor do mundo. O desemprego é um deles. No Brasil, somos hoje 14 milhões de pessoas que perderam seus trabalhos por conta do novo coronavírus.
Partilho aqui minhas reflexões sobre não ter atividade remunerada no meio da maior crise sanitária de todos os tempos:
1- São poucas as pessoas que suportam ouvir “Estou sem emprego”. Parecem temer que o mesmo lhes possa acontecer.
É como quando alguém se separa e vira um alvo a ser evitado, encarado como uma potencial ameaça à suposta estabilidade que achamos ter.
Tratar com respeito e escuta empática quem está neste momento aflitivo e angustiante faz toda a diferença.

2- São muitos a dizer “Vai passar” e poucos a, de fato, ajudarem a pessoa a fazer algo para que isto passe.

Quando tenho um/a amigo/a nesta situação, sempre procuro enviar o CV para alguém da minha rede que considero poder ser, genuinamente, útil.

Amizade é também ação. Discurso da boca para fora é propaganda política.

3- Uma das primeiras perguntas que fazemos, quando conhecemos ou ouvimos falar sobre alguém é: “Faz o quê? Trabalha com o quê?”.

O trabalho, em uma sociedade como a nossa, é encarado como definidor de quem somos.
Diante do desemprego, é muito comum o indivíduo se ver desprovido de identidade.
Associa-se o “ser” ao “trabalho”, e isso pode tornar-se profundamente perturbador, uma vez que continuamos “a ser” mesmo diante dessa situação transitória.
Distinguir trabalho e identidade é fundamental nessas horas.

O que leva aos pontos seguintes:

4- É preciso que lembremos àquele/a que está desempregado/a de seu valor, de que uma situação temporária não retira sua capacidade e seu talento. Ao lado dos danos financeiros, os danos na autoestima causados pelo desemprego podem ser terríveis, como a sensação de inexistência e invisibilidade. Saber distinguir a parte perene daquilo que é passageiro pode trazer algum alívio.

5- Ter um emprego, umas tantas vezes, não obedece à lógica do mérito.
Há infinitas contingências que podem, em incontáveis ocasiões, possibilitar a empregabilidade de uma pessoa, sem que isto nada tenha a ver com merecimento.
No caso da Pandemia, acrescente-se mais um fator externo a provocar a perda de atividade remunerada de uma pessoa, que não sua pretensa ausência de capacidade.
Faz-se necessário, portanto, lembrar da falseabilidade do pressuposto em que muitos que se encontram nesta situação podem cair: “Estou desempregado por falta de competência e mérito”.
Sabemos que só sairemos da Pandemia com a vacina e com esforços coletivos para evitar a proliferação da contaminação. É ao coletivo que se dirige a convocação, também, da solidariedade para aqueles duplamente atingidos pelo novo coronavírus. Além do isolamento social, a aflição do desemprego e tudo aquilo que isto desencadeia.
Acrescentemos – ao kit da máscara e álcool em gel – cápsulas de empatia e ações práticas para podermos ajudar a recuperação de todos aqueles que sofrem as sequelas e os estragos multicapilares da Covid-19.
Porque o tempo de quem está sem emprego é o tempo da urgência!