Racismo em moderação… Pode matar!

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Quando se trata de avaliar se um confronto entre uma pessoa branca e uma pessoa racializada foi motivado pelo racismo, surge inevitavelmente um problema: o “mas”.

Mas ela passou à frente na fila do autocarro…

Mas ela não trazia o passe da filha de 8 anos…

Mas eles estavam a atirar pedras aos carros…

Mas ele estava a fugir da polícia…

Não nos perdamos nos detalhes. São geralmente secundários. Obviamente, é hoje raro que um confronto entre uma pessoa branca e uma pessoa racializada ocorra por razão nenhuma (mas também acontece, em Portugal). E será ainda mais raro que a polícia use de força excessiva por motivo nenhum (mas também acontece, em Portugal).

Antes da morte brutal, mas calmamente executada, de George Floyd, que deu origem,  compreensivelmente, a protestos e manifestações nos EUA e em vários países, um outro confronto ocorreu em Nova Iorque que poderá ter passado despercebido aqui em Portugal. Mas, se passou despercebido, não devia, pois é crucial para compreender o contexto dos protestos das pessoas racializadas, lá e aqui.

No dia 25 de maio (1 dia antes da Morte de Floyd), estando Nova Iorque em quarentena, Ami Cooper estava a passear o seu cão em Central Park, numa zona protegida e reservada aos observadores de pássaros. O cão estava solto, sem trela, numa zona sinalizada que exige que os cães estejam sempre com trela. Christian Cooper, com o mesmo nome por mera coincidência, um homem negro, estava a observar pássaros na mesma zona. Sendo observador habitual de pássaros, Christian encontra recorrentemente, na zona protegida, donos de cães recalcitrantes, estando habituado a chamar a atenção e a pedir para colocarem a trela aos cães (a proibição deve-se ao facto de os cães soltos assustarem os pássaros, prejudicando a observação dos mesmos). Preparado para os mais recalcitrantes, Christian costuma andar com biscoitos de cão no bolso, para, quando os donos se recusam a colocar a trela aos cães, aliciar os melhores amigos do homem a mostrarem aos seus donos que há regras para cumprir. Foi assim mesmo que Christian atuou no dia 25 de maio. Pediu a Amy que colocasse a trela ao cão. Quando a dona se recusou, mostrou os biscoitos de cão, o que deixou Amy furiosa. Porque Amy se mostrava agressiva, avançando para Christian, ignorando as regras de distanciamento social, Christian iniciou a filmagem da interação. O que se passou a seguir é melhor ilustrado pelo vídeo da interação de Amy e Christian.

Peço-vos que vejam o vídeo. Mesmo.

Já viram?

Não se preocupem, não contém cenas gráficas, ninguém foi espancado ou morto.

Por sorte.

Frustrada por estar a ser filmada num momento de fúria injustificada, Amy começa por ameaçar Christian de que vai chamar a polícia. Christian reage calmamente. Ainda mais frustrada, Amy ameaça que vai ligar para a polícia e dizer – mentido – que está “um homem negro a ameaçar-me a vida no parque”.

Vamos parar neste momento.

Amy sabe que faz uma ameaça séria, pois fá-la já num contexto de enorme frustração e fúria. Mas porque é que a ameaça é séria?

Coloquem-se no lugar de Christian. Eu vou colocar-me e posso garantir: se uma mulher exaltada (ou um homem histérico) me ameaçar, enquanto a/o filmo, de que vai chamar a polícia e mentir, não ficarei muito preocupada. Estou a filmar, posso facilmente demonstrar que é mentira. Ah, e claro, não tenho razões para ter medo da polícia. Sou uma mulher branca de classe média.

Porque é tão grave a ameaça que Amy fez a Christian? Porque Christian é um homem negro. Porque, como uma história que se repete tantas vezes, quando a polícia é chamada a intervir perante a possibilidade de uma pessoa negra ser suspeita, existe um forte risco de este encontro terminar em morte. Mesmo quando não houve crime algum, mesmo quando não há “mas”.

Então, temos de chegar a outra conclusão: Amy conhece esta história, está consciente desta realidade (racista) quando faz a ameaça a Christian. Amy quis, portanto, utilizar o seu privilégio branco (que, provavelmente, nega existir) para, num momento de interação pessoal tenso com um homem negro, dar força a uma ameaça que, perante uma pessoa branca, seria quase inócua.

Mas Amy não se fica por aqui. Poderia e deveria ter esta estória ficado por aqui. Até seria relativamente desculpável. Estamos em pandemia, andamos todos/as um pouco mais irritáveis. São tempos difíceis. Amy está frustrada, cansada, disse aquilo da “boca para fora”, vá.

Mas não.

Amy liga mesmo para a polícia. E diz, insistentemente, na chamada para o 911 (equivalente ao nosso 112) que “está um homem negro a ameaçar-me a vida, a ameaçar-me, a mim e ao meu cão”.

Se Amy sabe que a ameaça é grave, então tem de saber que, ao fazer esta chamada para a polícia, nestes termos – manifestamente falsos –, está a desencadear um processo causal que não controla e que poderá ir terminar com a morte de Christian. Sabe que, se a polícia acreditar nela e aparecer no parque preparada para “caçar” um perigoso agressor negro, é muito possível que – e ainda que Christian não resista – haja uma escalada de violência policial. Vou repetir, Amy sabia que podia estar a ditar a morte de Christian. Já ouviram falar de “suicide by cop”? Isto seria “homicide by cop”.

Como? Quem é que chega ao ponto de aceitar matar um perfeito desconhecido por causa de uma discussão sobre a trela do cão?

Mas essa não é a questão, aqui.

A questão é outra, mais antiga e mais profunda.

Amy é uma mulher branca de classe média/alta.

Christian é um homem negro.

Amy não consegue conceber como é que um homem negro, desconhecido, tem a lata de lhe dirigir a palavra. Pior, de lhe chamar a atenção para uma infração. Em público! E ainda a filma em transgressão. É preciso compreender a cabeça mediana de uma pessoa branca (que nunca refletiu sobre racismo) nos EUA (um país que viveu em apartheid até 1964, pouco antes de Amy nascer) para entender a indignação (injusta) de Amy. Algures, na cabeça de Amy, no acumulado inconsciente resultado da herança histórica da escravatura e da segregação, esta mulher não acredita que Christian seja tão pessoa como ela.

Amy não chamou a polícia por estar com medo.

Amy chamou a polícia porque é racista.

Agora perguntam: mas é uma mulher normal, não é nazi, nem faz parte de movimentos de supremacia branca? Não.

Amy é só tão racista como a mediania das pessoas brancas que se recusa a refletir sobre racismo ou a admitir a sua existência (nos EUA e na Europa).

Amy é tão racista que está disposta a causar a morte de outra pessoa.

E ainda assim, Amy é apenas moderadamente racista.

Regressemos a Portugal.

Em 2002, Éder, um jovem estudante universitário negro, foi morto por um motorista da Rodoviária, no Campo grande. O motorista tinha-se recusado a parar para deixar Éder entrar no autocarro uma horas antes e foi confrontado pelo jovem. O motorista respondeu de modo desproporcionalmente agressivo, utilizando o autocarro para matar Éder. Provou-se que o homicídio foi deliberado. O motorista não fazia parte de nenhum grupo supremacista branco. Provavelmente, era apenas moderadamente racista.

Em 2018, uma jovem negra foi brutalmente espancada por um funcionário da empresa da 2045 (que faz a fiscalização dos autocarros da Sociedade de Transportes Coletivos do Porto). Tudo começou com uma pequena altercação porque, alegadamente, a jovem teria passado à frente na fila do autocarro. Tanto quanto sabemos, este funcionário não faz parte de nenhum grupo supremacista branco. Provavelmente, é apenas moderadamente racista.

Em 2020, Cláudia Nunes foi espancada enquanto se encontrava à guarda da polícia (alegadamente, caiu no chão à porta da esquadra quando estava detida e algemada) porque se recusou a pagar o bilhete da filha de 8 anos. Cláudia viajava com filha, de 8 anos, mas esqueceu-se do passe da criança. As crianças até aos 12 anos não pagam bilhete. Cláudia explicou tudo isto ao motorista e ainda garantiu que o irmão estava à chegada do autocarro com o passe da criança. O motorista recusou-se a ver o passe, exigiu o pagamento do bilhete – sem razoabilidade alguma – e, à chegada do autocarro, chamou a polícia. Cláudia foi detida à força, em frente da filha, de 8 anos, e acabou brutalmente espancada. É preciso repetir?

A sorte não está do lado das pessoas racializadas quando uma pessoa branca lhes atiça a autoridade…

Perguntem-se: quantas vezes já passaram à frente na fila de qualquer coisa? Ou já viram pessoas brancas a fazer o mesmo? Alguma vez acharam que corriam o risco de serem brutalmente espancadas por um funcionário? Quantas vezes se esqueceram do passe, vosso, ou das vossas crianças? Alguma vez a vossa história acabou à imagem do desastre que se vê na fotografia da cara de Cláudia Nunes?

Mas, então, quer dizer que nunca posso chamar a polícia contra uma pessoa racializada? Podem, claro. Se houver um risco sério para a vossa segurança ou a de terceiros.

Quer dizer que nunca me posso insurgir contra uma pessoa racializada? Podem, claro. Desde que não chamem a polícia porque discordam quanto ao preço do feijão.

Mas eu não discuti porque sou racista!

Talvez… Ou talvez não.

Vou contar-vos uma história real, que vivi. Um certo dia, estava na fila dos cestos (até 10 unidades) de um supermercado. Alguns lugares mais à frente da fila, estava um cesto desacompanhado, com alguns produtos. Isto acontecia muito há uns anos (talvez ainda aconteça), havia sempre aquela pessoa que colocava o cesto meio cheio na fila e ia fazer o resto das compras. Como ninguém aparecia, fomos avançando e o senhor à minha frente acabou por colocar o cesto de lado, para a fila continuar a avançar. Entretanto, chega a dona do cesto, uma senhora negra. Fica zangada quando vê o cesto fora de sítio e percebe que vai ter de ir para o fim da fila. Refila connosco e o senhor à minha frente responde que não pode ser, não pode guardar lugar na fila e ir fazer compras. Em nenhum momento foram usadas expressões pejorativas ou racistas. A senhora não se resigna e grita “racismo” várias vezes. Ninguém ligou e a fila retornou ao normal.

Neste caso, tenho a certeza que não foi racismo. Não podia ser, nenhum/a de nós tínha visto quem era o/a dono/a do cesto.

Mas é só mesmo neste caso que vos garanto não ter havido racismo.

Na dúvida, é muito possível que seja racismo.

Porque também em Portugal, estas coisas vão acontecendo. Também em Portugal, as pessoas brancas devem ter consciência do risco. Devem estar conscientes de que há racismo. De que nós, pessoas brancas, somos, provavelmente, moderadamente racistas. Tão moderadamente racistas como Amy Cooper.

E de que o racismo, mesmo com moderação, pode matar.

 

P.S.1: A luta antirracista não é encargo e responsabilidade das pessoas racializadas. É encargo e responsabilidade das pessoas brancas.

P.S.2: Se, quando ocorreram os ataques em Paris, não responderam ao “I love Paris” com “all cities must be loved”. Se, no dia da luta contra o cancro da mama não gritam, indignados, “todos os cancros contam!”. Se, no dia do pai não exclamam: “e as mães!”? Então, não partilhem o lema racista “all lives matter”. O movimento “black lives matter” não diz que “only” black lives matter. Obviamente, todas as vidas contam de mesma forma. Mas, nos dias de “tragédia” em que mais uma pessoa negra é vítima fatal de racismo, o que se pretende é chamar a atenção para o risco especial das vidas das pessoas racializadas nestas circunstâncias. Tão-só. É possível que não sejam racistas e partilhem esta parvoíce. É possível. Mas devem saber que foram os movimentos racistas, supremacistas brancos, quem criou este mote. E se sabem disto, e continuam a gritar “all lives matter”, é também possível que sejam, vocês, só moderadamente racistas.

P.S.3: Não me move, na escrita deste artigo, qualquer animosidade especial contra a Polícia. Pelo contrário, é por enorme respeito pela polícia que falo, continuamente, destes assuntos. Como cidadã, considero fundamental que todos possamos confiar na Polícia, contar com a ajuda da polícia. Isto não acontece se alguns de nós (as pessoas racializadas) tiverem razões (erradas) para ter medo da polícia. Porque sei, por experiência pessoal, que o papel da polícia pode ser crucial nos momentos mais difíceis. E já pude contar com essa ajuda algumas vezes. Mas, se têm dúvidas, posso responder assim: até tenho uma amiga que é polícia…