QUERIDA SOFIA

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Olá Sofia. Eu sou a Cátia. Não, não me conheces. Sou mais uma das tantas anónimas a admirar-te. Nem sei bem porque te escrevo isto mas senti-me na obrigação de o fazer, talvez porque acho que mereças ler cada palavra aqui escrita.

Sou mulher (com muito orgulho!) e não consigo sequer imaginar aquilo por que passaste. Como mulher, não me consigo imaginar sem o meu peito, sem o meu cabelo ou com a pele completamente pálida. Como mulher, também tenho medo de passar pelo que tu passaste. E como ser humano, também tenho medo de ficar doente, como todos os seres humanos têm. A verdade é que sempre tive medo e talvez por isso te admire tanto. Há uns anos, apareceu um pequeno “nódulo” no meu peito direito e, como ouvia tantas notícias sobre essa doença terrível, fiquei assustada. Corri para o hospital e, felizmente, estava tudo bem. “Faz parte da idade”, disseram-me. Mas a partir daí, temi sempre. Todos os dias fazia a apalpação com medo que estivesse tudo mal. Todos os dias pensava “e daqui a uns anos? Será que vou ter de enfrentar uma dura batalha?”. Pensamentos que não deviam estar na cabeça de uma miúda prestes a entrar na universidade e que deveria parar de pensar no futuro dessa forma. Afinal, ninguém está livre de uma coisas destas e ninguém pode adivinhar o que vai acontecer amanhã, certo? Tentei mentalizar-me que não podia fazer mais nada a não ser cuidar da minha saúde psicológica e mental e que não devia temer o futuro porque este “só a Deus pertence”, como se costuma dizer. Mas os medos apareciam de novo sempre que lia mais uma notícia de uma mulher com cancro da mama. Sim, porque de todos os tipos de cancro, este foi o que sempre me assustou mais.

Depois? Depois apareceste tu. “Como é possível a Sofia ter cancro?”, pensava eu. Depois entendi que o cancro não escolhe as suas vítimas. Ataca e pronto. Não importa se és saudável ou se tens uma vida de riscos. Ele invade, sejas tu quem fores e tenhas tu o que tiveres. E tu, querida Sofia, não foste exceção. Sei que foram meses de lágrimas e dores constantes mas também sei que vais conseguir retirar um lado positivo disto tudo e é por isso que digo que mudaste a minha forma de ver as coisas. Se antes eu temia por tudo e tinha medo do que o futuro me poderia reservar, agora estou em paz. Não temo o que possa vir daqui a dez ou vinte anos. Apenas vivo um dia de cada vez. E se algo menos bom acontecer “faço como a Sofia, sorrio para os problemas”, digo a mim mesma. E é isto que penso sempre que algo me magoa ou me dilacera. Penso em ti, querida Sofia. Penso na tua força e coragem e sorrio. E sorrio com vontade. Afinal, se tu foste capaz de enfrentar uma batalha tão difícil de uma forma tão positiva porque raio hei-de perder tempo a chorar pelos cantos? É com um sorriso, com pensamento positivo e energia que os problemas se curam. E isto aprendi contigo. E agradeço-te por mo teres ensinado.

Sei que a tua batalha chegou ao fim. Sei que as lágrimas que te escorrem pelo rosto, desta vez são de felicidade. E que bom é ver que conseguiste! Mas sabes o que é ainda melhor? Olhar para ti e nem sequer me lembrar que tiveste a doença, porque parece que não aconteceu. Talvez porque nunca deixaste que se apoderasse de ti. És um dos casos raros em que a doença não liderou. Tu mandaste nela! Não a venceste porque, na verdade, ela nunca chegou a entrar dentro de ti. Afetou-te fisicamente? Sim. Mas o mais importante não conseguiu atingir: a tua alma. Essa permaneceu sempre intacta, pura e pronta a lutar. E se hoje muitos te consideram uma guerreira, eu sou uma entre milhares de pessoas que te consideram uma inspiração. Porque mulheres com a tua força há poucas. E se hoje te dedico este texto na plataforma Capazes é porque tu mereces. Porque tu és uma Capaz, uma Capaz que representa tantas outras que, como tu, enfrentaram o mais temível dos medos. Porque todas somos Capazes, basta querermos.