QUANDO TUDO APARECE FEITO EM CASA

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Sábado de manhã deixei-me ficar na cama a ver um filme de animação com a miúda e o marido. Soube-me bem.

O filme era giro, bem-disposto e animado. “Sing” conta a história de um grupo de animais comuns e muito diversos com imenso talento para cantar. Um dos animais  resolve juntá-los e organizar um maravilhoso espetáculo para que todos tenham a oportunidade de mostrar o que valem em palco.

Houve uma personagem que me marcou, em particular.  Uma porquinha, dona de casa, com uma catrefada de filhos e um marido que passava o dia inteiro fora, a trabalhar, para “sustentar” a família. Ela cantava e dançava enquanto executava as tarefas domésticas, mas ninguém lhe dava o devido valor. Ninguém via o seu talento.

A sua presença em casa era fundamental, claro. Os filhos, o marido, a manutenção do lar… representavam uma carga brutal de trabalho para a porquinha. Trabalho invisível, sim, mas que não se fazia sozinho. Perante a impossibilidade de contratar ou pedir ajuda a alguém, a porca teve a ideia de criar uma máquina que lavasse pratos, desse as lancheiras aos miúdos e avisasse o marido para não se esquecer da chave antes de sair. A princípio, a máquina funcionou na perfeição e ela pôde ir aos ensaios para o espetáculo em paz.

Ninguém deu pela sua falta.

Até a máquina avariar… e o caos começar, naturalmente. Até as tarefas deixarem de aparecer feitas por magia, ninguém deu pela falta da porca. O trabalho dela era essencial para a vida de todos, era árduo e interminável, mas tanto o trabalho como ela própria eram invisíveis.

Fiquei a pensar.

Quantas camas são feitas, quantas carpetes se aspiram, quantas cuecas e meias aparecem lavadas e dobradas nas gavetas, como que por magia? Quantas mulheres existem pelo mundo fora, tão invisíveis como aquela personagem? Quantas mulheres desistem dos seus sonhos, apenas para serem invisíveis aos olhos das pessoas pelas quais desistiram desses mesmos sonhos?

Pior: quantas mulheres passam o dia a realizar tarefas invisíveis para depois ouvirem dizer que estão em casa “sem fazer nada”?

O trabalho doméstico engloba um conjunto de tarefas das mais ingratas e aborrecidas que já vi. É como se tentássemos cobrir um colchão grande com um lençol pequeno: puxamos uma ponta e temos de ir logo a correr puxar a outra. Todos os estudos dizem que as mulheres realizam uma grande parte do trabalho doméstico sozinhas. Sim, as coisas estão a melhorar, mas a realidade é que, na maioria das vezes, ainda é à mulher que se atribui a responsabilidade de manter a máquina a funcionar. E o trabalho não é só físico, também implica gerir uma série de coisas, desde os horários da família, aos stocks da despensa, passando por recordar a data de aniversário do primo em 5º grau que vive na Tanzânia.

As mulheres estão sobrecarregadas e exaustas, mas a sociedade continua a dizer-lhes que são leoas guerreiras que conseguem ter e fazer tudo. A sociedade continua a dizer-lhes que é possível trabalhar dentro e fora de casa com sucesso se conseguirem gerir o tempo adequadamente. A casa, os filhos, a relação, o trabalho, o ginásio, o cabeleireiro: os dias esticam… mas só nos filmes é que acaba sempre tudo bem.

Ninguém dá pela falta destas mulheres enquanto as tarefas invisíveis aparecem feitas e a vida vai correndo. Elas podem transformar-se em máquinas automáticas e eficientes, com todos os minutos contados para atingir a performance perfeita. Elas podem fazê-lo, até a máquina avariar e o caos começar.

Só que, no mundo real, quando a máquina avaria, costuma ser tarde demais.