Quando te diminuem

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São muitas as pessoas que julgam que só determinadas mulheres podem ser vítimas de violência doméstica. Vejamos, uma mulher estudada, com uma carreira profissional, muitas vezes viajada, não reúne, em teoria, condições para ser vítima de violência doméstica. Todos nós sabemos o perigo das preconcepções. Padronizar perfis e encerrarmo-nos nesses mesmos estereótipos faz com que vejamos as coisas a preto e branco. Contudo, o mundo não se divide em duas cores. Há muitos tons de cinzento, e, se não conseguimos vê-los, provavelmente, iremos cometer injustiças.


Um dos problemas da violência doméstica prende-se com a invisibilidade com que se instala na vida das vítimas. Assim, a primeira armadilha é acharmos que nunca aconteceria connosco. Muitas das vítimas não partem após a primeira estalada ou após a primeira humilhação, pois já estão envolvidas numa teia tão bem tecida que chegam a sentir-se, apenas, como parte do problema.


Com o decorrer do tempo, as vítimas são condicionadas a julgar que o problema/culpa de tudo o que se passa à sua volta é delas. O agressor é compreendido pela vítima! Ela é a primeira a ponderar a mudança das próprias atitude, quando o agressor, admitindo que a trata mal, lhe pede que colabore e altere o seus comportamentos: que não o irrite, que não o questione, que não o enfrente…


Um relacionamento abusivo começa de forma subtil. O agressor assume-se como a pessoa ideal. Assume-se como “a última bolacha do pacote”. Cria um momento de “só nós os dois contra o mundo”. Desenha-se o prisma de um relacionamento perfeito com grandes declarações de amor. Com isso, e com tamanha demonstração de amor, tende a isolar a vítima, retira-lhe/condiciona-lhe a rede de suporte, seja a família, amigos, colegas.


Um alvo isolado torna-se mais fácil de controlar. De forma velada, o agressor vai sugerindo “agora somos nós, não precisas de te preocupar com a tua família, nós vamos construir a nossa…”; “no geral, os teus amigos têm inveja de ti, só querem o teu mal…”.


A vítima não quer alimentar discussões, quer que tudo fique bem porque aquela pessoa agora é o seu mundo. Afastou-se da família, dos amigos, por isso se for preciso ajoelhar para pedir desculpas, ela fá-lo. Nem é assim tão difícil e fica tudo bem dessa forma! – aparentemente.


Depois, habilmente, a vítima é diminuída, “deixa estar, está quieta que tu não sabes fazer, tu não sabes fazer nada de jeito”; “isso, não fica bem, não tens corpo para vestir isso”. Aos poucos, vai-se interiorizando tudo isto como verdades absolutas, já não há outras versões para ouvir, apenas a de um agressor que se tornou o seu porto de abrigo.


Apesar de doentio, aquele relacionamento é mais seguro do que não ter nada. Tornou-se uma âncora. Tanto que se o agressor disser que vai embora, porque a vítima não “presta”, ou “não sabe fazer nada”, muitas vítimas pedem para que ele volte. A essa altura ainda não se acham vítimas, apenas incapazes. Muitas acham que não sabem viver sem o agressor. Vivem num medo constante entre como agradar o agressor, fazer tudo certo para que ele não fique zangado. Precisam daquela âncora.


A vítima sente-se uma nulidade, esqueceu-se do que gosta, de quem gosta, de quem foi, de quem é e de quem quer ser. Perdeu sonhos, ambições e desejos. Passou a viver em função do outro e isso retira-lhe forças para agir.


Quando quem amamos nos diminui, tornamo-nos pequeninos, independentemente daquilo que fomos. Mexer com a nossa autoestima, rebaixá-la, é retirar uma das nossas armas mais poderosas. Que saibamos sempre quem somos, do que somos capazes.


Que nunca nos deixemos diminuir!