PORQUE SOU GORDA, TENHO DE SER INFELIZ? por Isa Silva

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Desde que me lembro, sempre tive um peso acima do que é considerado aceitável.

Trocando por miúdos, e indo direta ao assunto, sempre fui gorda.

Na verdade, tenho pensado bastante se sempre fui gorda ou se sempre me vi assim. Desde crianças que nos exigem certas características para nos adequarmos ao molde que a sociedade criou para nós. Os problemas começam quando algo foge a esses padrões e são milhares as diferenças que podem transformar-nos num potencial alvo. Não me recordo exatamente quando começaram os problemas entre mim, persona, e o meu corpo, mas rapidamente se misturaram com questões de autoestima. Com o que sentia quando me olhava ao espelho. Por isso, não é fácil perceber se todas as inseguranças que senti e sinto em relação ao meu corpo são algo que nasceu de mim ou se me foram incutidas pelo meio que me rodeia desde cedo.

Lembro-me bem que odiava a escola. Não porque não gostasse de estudar, sempre adorei estudar, especialmente História, mas odiava os nomes que me chamavam, os risos, os comentários feitos em voz baixa durante as aulas de Educação Física. E também nas aulas de Francês, nas quais eu era obrigada, pela regra da ordem alfabética, a sentar-me ao lado daquele que era considerado o “rapaz mais giro da escola” e que passava perto de uma hora a sussurrar que eu era uma gorda, uma porca. Tudo isto entre risinhos partilhados com os amigos que estavam por perto. Em quase todas as aulas eu suplicava à professora que me mudasse de lugar mas os pedidos eram sempre ignorados, o que motivava mais risos, mais nomes feios, mais humilhação.

Odiava o dia dos namorados. Eu, criança, sentia-me quase que obrigada a escrever uma carta de amor a qualquer colega, mesmo que todos me vissem como objeto de piadas. E quando um dos “menos maus” recebia uma carta escrita ao acaso, para encaixar numa data sem significado, rapidamente identificava a minha caligrafia e lá vinham novamente os risinhos, o olhar de cima a baixo, os nomes ofensivos. Cheguei a receber cartas simpáticas, claramente escritas por professores ou por amigas, para amenizar a falta de correspondência. A verdade é que até hoje não gosto do chamado dia dos namorados.

Tudo isto se passava entre crianças. O que hoje se chama bullyingera protagonizado por crianças, mas não era algo menos sério, não era apenas uma brincadeira inocente. O bullyingé uma forma silenciosa de nos roubar a autoestima, o amor-próprio, os nossos sonhos. Crescemos a acreditar que nunca somos suficientes, pensando sempre, inconscientemente, em formas de nos escondermos do mundo, quer através de roupas que tapem o nosso corpo ou de “máscaras” que criam uma ilusão de pessoa bem resolvida e confiante. Não passa de uma ilusão. Simplesmente fazemos tudo para que ninguém nos veja, para que ninguém note a nossa presença no meio da multidão. Mergulhamos num mundo só nosso e a solidão passa a não ser algo tão mau.

E crescemos assim. Por vezes até nos tornamos bullies. Eu cheguei a esse ponto também. Não é que sejamos iguais aos outros, mas existem fases. Inicialmente queremos apenas misturar-nos, sermos aceites, mesmo fingindo sermos alguém que não somos. E até sabia que, ao interpretar o papel da “gorda engraçada” que embarca nas brincadeiras, atraía pessoas que estavam ao meu lado para se rirem, e lá no fundo sentia que não era para se rirem comigo mas para se rirem de mim.

Depois, normalmente, vem a fase em que nos convencemos de que as pessoas ao nosso redor nos aceitaram assim. E como poderia isso ser verdade se nem nós nos aceitamos tal como somos?

Esta é apenas a minha experiência, até porque acredito que existem pessoas com características fora do padrão que se aceitam desde muito novas, mas já não consigo acreditar que as palavras não as magoem.

A nossa voz, a que nos acompanha todos os dias, a todas as horas e minutos, não é algo que nos preencha, por si só. E vivemos num mundo que adora dizer às mulheres como devem ser, que peso devem ter, como se devem comportar, o que devem defender, o que devem vestir. Esta é a sociedade que se acha dona da verdade, que acha, do alto da sua superficialidade, que sabe o que é a beleza. Esta é a sociedade que usa “maquilhagem” para esconder as suas doenças, as suas contradições, a sua profunda Infelicidade.

E vamos crescendo, vamos evoluindo, vamos aprendendo. Enquanto passamos por todas estas fases, lá vamos ouvindo as frases típicas, personalizadas consoante o estereótipo no qual não nos encaixamos:

“A menina também, com esse cabedal, não precisa de comer muito”

“Ela até podia ser bonita se emagrecesse”

“Ai, estás mais magra!” (o que normalmente é mentira)

“Falei com aquela sua colega, mais “fortezinha”

E por aí vai. Ouvimos tantas frases ofensivas que acabamos por nos habituar. Quando dei conta, já não era só uma menina, era uma mulher, e decidi que já não queria lidar com este tipo de situações e comentários se forma complacente. Há uns 3 anos, tinha acabado de mudar de trabalho e estava feliz porque no emprego anterior tinha sido completamente explorada e constantemente lembrada de que era mulher e mãe de um filho pequeno – como se fossem defeitos. Talvez essa minha experiência fique para uma próxima. Como disse, mudei de emprego, e estava mesmo feliz. Foi uma lufada de ar fresco na minha vida. Então, descobri que três dos meus colegas (se não mais), todos homens, se referiam a mim como “o cachalote”. Pela primeira vez, fiquei furiosa e não só triste. Fiquei tão indignada que resolvi falar com cada um deles separadamente. Disse-lhes que sabia que me chamavam “cachalote” e que não iria admitir semelhante tratamento no nosso local de trabalho. Que fora dele, poderiam chamar-me o que quisessem porque cada um tem o seu nível de maturidade. Mas não ali. Eu só tinha obrigação de educar o meu filho, mais ninguém. “Que seja a última vez que ouço esse nome. Se souber que isto continua vou tomar outras providências, nem que tenha de entrar pela via legal”.

Foi um ponto de viragem. O meu ponto de viragem. Percebi que não tinha de admitir nem mais um minuto ser tratada com desrespeito e essa tomada de consciência fez-me ter orgulho em mim. Passei a investir mais, a pensar em como poderia ser melhor, dependendo apenas de mim e aprendendo com as situações que iam surgindo. Demorei muito a conseguir cultivar um pouco de amor-próprio e ainda hoje é difícil manter esse espírito, essa determinação, porque quase todos os dias surgem pequenas situações que me dizem que não sou suficiente, que não sou bonita, que devo sentir-me mal por ser gorda.

Sou perfeitamente saudável, a todos os níveis, mas nem isso é suficiente. Já por inúmeras vezes me sugeriram dietas “pela minha saúde”, pessoas que não são médicas, nem tampouco conhecem o meu estado de saúde. Na realidade, até os médicos pensam assim.

No ano passado tive a minha filha. A médica que me examinou logo após o parto disse que eu tinha de emagrecer, primeiro porque a cicatriz poderia não cicatrizar bem e também porque eu era “grande por um todo”. Deveria aproveitar a “oportunidade” (pós-parto) para emagrecer. Tudo isto dito numa fase da vida em que eu, como qualquer mulher, me encontrava profundamente frágil. E para que conste, os meus dois filhos nasceram de cesariana e, das duas vezes, as cicatrizes cicatrizaram sem quaisquer problemas.

Quem me conhece mesmo bem pede-me que emagreça porque sabe que não sou feliz assim, mas a pergunta que não desaparece da minha cabeça continua a ser “porquê?”.  É verdade, sim, que a imagem do meu corpo me afeta, que muitas das vezes não gosto de me olhar ao espelho, que me sinto triste, que me sinto menos, que me sinto insignificante, que não me sinto bonita. É assim nos dias maus, quando todas as minhas inseguranças me assolam e me aprisionam num mundo solitário que me isola. Mas nos dias bons, pergunto-me “será que eu quero mesmo emagrecer ou é a sociedade que quer que eu acredite que devo emagrecer?”.

Para muitos, tudo isto deve parecer superficial, falta de autoestima, mas o bombardeamento é diário. As pessoas que vemos na TV, nos anúncios, a forma como nos olham na rua, como nos encaram em entrevistas de emprego, as palavras ditas em surdina…

A grande questão é “porque não podemos ser nós próprios?”. Gordos, magros, altos, baixos? Não me encaixo nestes moldes, nem quero, e não entendo porque a sociedade continua a cultivar sentimentos negativos e pessoas infelizes. É uma bola de neve. Uma sociedade que nos prende às correntes dos estereótipos e às expectativas que estes geram, será sempre uma sociedade onde a igualdade e equidade são aquele horizonte longínquo onde muitos ainda acreditam que vive o velho Adamastor. Quero os novos horizontes, aqueles que nos ensinam que as nossas diferenças são o que nos enriquece e o que nos faz evoluir.