Por amor cegou

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Esta, que agora vos escreve, vê os filhos do Céu. Dizem que sou a estrela mais brilhante no caminho que eles seguem. Nas encruzilhadas que terão que enfrentar. Nas chapadas da vida. Irónica, ela. Mas esta, que os vê do Céu, que já não lhes afaga o cabelo ou puxa a colcha durante o sono em noites frias, já lhes deu colo. E dará, eternamente. Mas a partir do Céu. Não sabe ao mesmo, este abraço. Porque esta, que vos escreve, morreu-lhes à frente. Entre um murro que a projectou contra a parede e os pontapés nas costelas que lhe perfuraram o pulmão.

Cheio. Vazio. Cheio. Vazio. Vazio. Vazio.

E esta, que vos escreve do Céu, só tinha trinta e poucos. Mas mais de trinta sonhos. Casou por amor. E por ele se calou. E apanhou. E hoje, no Céu, vê-o passear o cão. Gabando-se aos amigos do filho que já tem barba. Da filha que agora lhe faz o almoço. Ocupando o lugar da mãe. Que os vê do Céu. De coração esmagado a soco e a empurrão. De coração sufocado. Para sempre calado.

Bate. Para. Bate. Para. Para. Para.

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