POEMAS CANTADOS

1332

Lay lady lay
Lay across my big brass bed
Lay lady lay
Lay across my big brass bed

Whatever colors you have in your mind
I show them to you and you see them shine

Lay lady lay
Lay across my big brass bed
Stay lady stay
Stay with your man a while
Until the break of day
Let me see you make him smile

His clothes are dirty but his, his hands are clean
And you are the best thing that he’s ever seen

Stay lady stay
Stay with your man a while

Why wait any longer for the world to begin
You can have your cake and eat it, too
Why wait any longer for the one you love
When he’s standing in front of you

Lay lady lay
Lay across my big brass bed
Stay lady stay
Stay while the night is still ahead

I long to see you in the morning light
I long to reach for you in the night

Stay lady stay
Stay while the night is still ahead

 

Bob Dylan

 

Não sou boa com datas, mas suponho que o ano rondasse 2005.

O amor crescia em mim, devagarinho, quase sem que desse por ele, como tantas vezes acontece da primeira vez que nos apaixonamos. A cada sorriso, a cada palavra, a cada desculpa esfarrapada para passar mais uma hora ou duas juntos. Um súbito interesse em aprender alemão, uma vontade inexplicável de saber formatar um computador… A razão não era muito importante, desde que funcionasse.

E funcionava sempre, porque nós assim queríamos.

Ele gostava de música, e eu também, embora não conhecesse tantas como ele. Um dia, mostrou-me este poema cantado. Enviou-o pelo computador, na forma de um qualquer impulso eléctrico a que pomposamente chamámos “ficheiro mp3”.

E eu ouvi.

Ouvi de novo, uma e outra vez, encontrei-lhe significado, percebi. Porque estas eram as palavras que ele não sabia escrever, mas que sentia. E descobri que também eu tinha as mesmas palavras impressas na alma. Também eu queria dizê-las, mesmo que ainda não soubesse como.

Nascia o meu primeiro amor a sério.

Não era bom com as palavras, dizia. E no entanto soube encontrar este poema. No entanto, soube que o que queria dizer-me cabia num ficheiro pequenino, um minúsculo blip eléctrico, algo ainda mais insignificante do que nós no esquema do universo.

O Bob Dylan ajudou-me a reconhecer o amor.

(Quem melhor para o fazer que um poeta?)

As músicas não são, afinal, mais do que poemas cantados. Podemos dar as voltas que quisermos, mas as letras são poemas e nunca deixarão de o ser. O Bob Dylan pode até não ser o melhor poeta da actualidade, mas é um óptimo autor que influenciou várias gerações. (Será que as contribuições de Barack Obama para a paz foram mais importantes que tantas outras?)

Os prémios são sempre subjectivos. Existe e sempre existirá discórdia, é óptimo que assim seja! Discutir aguça-nos a mente, obriga-nos a conhecer coisas novas, a consolidar opiniões, a justificar escolhas. Só não me venham dizer que música não é poesia. Não me venham dizer que quem escreve algo como “Like a Rolling Stone” ou “Mr. Tambourine Man” não é poeta, porque me insultam a inteligência e me atacam o coração.

A minha opinião vale o que vale, claro.

Mas continuarei sempre a achar que quem cria um blip minúsculo capaz de mudar tanto a vida de alguém, merece todos os prémios do mundo.