PARA AS MARIAS DE PORTUGAL

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A Maria não foi à escola, não podia. Menina que se preze fica em casa a aprender a lida. Tinha que ser uma boa esposa. Passaram-se os anos e a Dona Maria casou. Casou porque era a isso que estava destinada. Casou sem saber ler, escrever ou contar. Mas sabia cozinhar e alinhavar como ninguém.

Casou feliz. Finalmente deixaria de estar presa às regras austeras do pai. Iria ser livre, dona do seu nariz, como sempre sonhou! Casou com um moço trabalhador.

A Dona Maria tinha de ter sempre tudo pronto para quando o homem chegasse a casa. Ele vinha cansado.

A lida da casa e do quintal não lhe dava descanso. Ainda pensou em arranjar um trabalho, mas o marido tinha razão: quem quereria uma empregada que não sabe ler nem escrever? Quem quereria uma empregada burra como ela?

Foi então ficando pelo quintal, tratando dos animais e da lida de casa. Depois vieram os filhos.

O chefe da carteira era o marido. Ela não sabia administrá-lo. Nem sabia contá-lo. Sempre que falava em compras, o marido dizia-lhe para não ser gastadora. Ela não sabia o quanto custava a ganhar, por isso às vezes levava umas estaladas. Ela era um fardo!

Com seis filhos e uma casa para construir, num país onde os ordenados eram tostões, a vida estava difícil. O marido, trabalhador e sábio, decidiu emigrar para um dos países onde se ganha muito dinheiro. Com o companheiro emigrado, Dona Maria ficou sozinha com o quintal e os seis filhos nos braços. Muitos diziam que estava muito bem, que o desgraçado se matava a trabalhar e ela a gozar-se da casa.

Como era iletrada e não sabia contar o dinheiro, não ficava com nenhum para as temporadas em que o marido estava fora. Na aldeia, pedia fiado na mercearia. Para não ser gastadora e não apanhar por gastar muito dinheiro, passava com uma côdea de pão.

Quando o marido regressava do estrangeiro, tratava das contas da família e de aquecer as mãos no corpo exausto da Dona Maria.

Era assim. Todas as mulheres da aldeia sabiam disso. Vida de mulher: lavar, coser, estender, cozinhar, lavrar, semear e apanhar.

A Dona Maria até tinha sorte, ele batia-lhe poucas vezes.

Os anos avançaram, os filhos cresceram e a Dona Maria aprendeu a resignar-se.

O marido morreu. Foi a doença ruim. A Dona Maria cobriu-se de negro.

Os filhos emigraram para os países com dinheiro. Queriam construir casa.

A Dona Maria ficou sozinha na sua. Era uma sortuda porque o marido lhe tinha deixado a casa pronta e uma reforma boa dos países com dinheiro. Vivia os seus dias entre o quintal e a lida.

A Dona Maria, coberta de negro, sentia-se feliz. Era livre. Porém, só. Não tinha os filhos por perto. A idade avançava. Não sabia tratar das coisas difíceis: IRS, médicos…nada! Sempre que chegava uma carta pelo correio tinha que pedir a alguém que a lesse.

Os filhos convidaram-na para ir passar uma temporada ao pé deles. Foi para um país novo. Ninguém a conhecia. A filha disse para tirar o negro e levou-a ao cabeleireiro. A Dona Maria gostou do que viu ao espelho.

Mas queria voltar para a aldeia, para a sua casinha.

Voltou. Todos no povo lhe falavam. Uma mulher às direitas, cuidou dos filhos e da casa sem nunca se meter na vida dos outros. Sempre a guardar respeito ao marido.

Sentiu-se sozinha.

Procurou o centro de dia. Ao fim de 30 anos viúva, queria ter companhia. Só ter alguém com quem falar. Conheceu o Senhor Manuel, também viúvo. Prometeu que a ensinava a ler. Disse que a ajudava a tratar das coisas difíceis.

A Dona Maria encantou-se. A ajuda que tanto precisava! Vivia sozinha e ele também. Disse-lhe que podiam viver os dois. Ela foi ter com os filhos e pediu autorização.

Ele foi viver com ela. O povo não gostou. A família deixou de lhe falar e os filhos ficaram divididos.

A Dona Maria passou a ter ajuda nas coisas difíceis mas perdeu a liberdade que tanto demorara a conquistar. Ficou presa à tarefa do cuidado. Perdeu ligações familiares. Perdeu liberdade.

Já não veste de negro, a Dona Maria, mas chora todos os dias.

As suas rugas são iguais às de muitas “Marias” de Portugal. Marias que que viveram e sofreram uma realidade que nos compete a nós mudar. Dar dignidade ao envelhecimento feminino. Permitir que a luta das nossas Marias dê frutos para as novas Marias que virão.

Esta história é baseada em fatos reais.