PARA ARRIBA! por Joana Barrios

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Numa das muitas vezes que saí do meu trabalho no Lux às cinco e meia da manhã, para ir a correr para o Aeroporto para depois ir trabalhar para qualquer lado num projecto insano e tremendamente intenso, apanhei um motorista de táxi muito intrigado com a minha sobriedade carregando uma malinha de viagem àquela hora.

Era uma madrugada de Domingo, tinha estado a chover muitíssimo e eu estava ensopada até aos ossos, depois de uma noite inteira à porta. Ainda assim sentia-me muito independente e realizada na minha condição de working gal. Aquela sensação óptima de quando controlamos o nosso destino, porque ele só depende de nós, sabem?

Adiante.

Mal me abeirei da praça de táxis, um dos muitos motoristas que recusava jovens com copos na esperança de não ter de lavar o carro cheio de vomitado a meio do serviço fez-me sinal para entrar. E eu, de mala aviada, entrei. Entornou-se logo o caldo porque a mala devia ter ido para o porta-bagagens (para não se perder a hipótese de cobrar um suplementozinho, claro), Menina! 

Calei-me. 

E passado o viaduto da Avenida Infante D. Henrique, a subir o Vale do Silêncio ali em direcção à Paiva Couceiro, o motorista emendou a mão e encetou conversa comigo. Estava muito intrigado com a mala de viagem. Perguntou se era animadora e eu lá lhe expliquei que era actriz e que escrevia, e que trabalhava à noite para viabilizar essas profissões e que ia para Berlim fazer um filme. 

Meteu-se mais um silêncio. 

Enquanto descíamos a Morais Soares e ali a chegar à Praça do Chile: 

– A menina deve conhecer… mas sabia que aqui há bolos quentes a noite inteira? Nunca cá veio? 

– Sei, mas não costumo comer assim muitos bolos. 

– Tem namorado?

  – Não.

– Pois… Por isso é que pode andar nesta vida!…

Mais um silêncio.

– Olhe, eu tenho uma cliente que ela é francesa, mas fala bem português, que vem cá muito e por acaso até sou eu sempre quem lhe faz os serviços – mas bom – engraçado que ela também anda sempre com uma malinha pequenina dessas com rodas, toda sempre muito bem arranjada, diz que trabalha num banco francês, mas cá. Eu não sei nada, mas se ela trabalha num banco francês, o que é que vem cá fazer quase todas as semanas, de avião de um lado para o outro? Deve ser assim da sua idade e também diz que não tem namorado, que eu já lhe perguntei. Assim é fácil, não tem de fazer o jantar, nem nada… Agora banco francês, não sei qual é que é…

Estávamos já a chegar à Rotunda do Relógio, sem o nome do banco, mas com uma faustosa apreciação das possibilidades reservadas a uma Mulher, servida pelo monólogo muito simplesmente iluminado de um Homem comum. 

Lembrei-me particularmente desta viagem de táxi pelo que significa Maria Capaz enquanto plataforma distanciada das exacerbações e arrebatamentos típicos de um ajuntamento composto apenas por Mulheres emancipadas, unidas pela liberdade. 

– Mas Marias Capazes de quê?
– De tudo! 

Voltando ao motorista de táxi – porque já estávamos na Rotunda do Relógio – não estava nada incomodada com o que ele me estava a dizer, porque nunca senti (e mesmo hoje, enquanto revivo esta história na minha cabeça) que me discriminassem enquanto Mulher, embora estivesse a perceber que toda a conversa era uma alegoria. 

Só que mesmo àquela hora, eu estava muito alegore, e a minha alegoria é muito difícil de arrebatar. Estava num momento de paz eufórica, alegore por tudo. Sentia-me muito bem comigo, e não tinha necessidade nenhuma de enfrentar o taxista. 

A afirmação feminina, há uns dois anos atrás, era sempre levada para o descampado do feminismo quadradão e não para o bosque encantado dos novos feminismos. Há dois anos nem sonhávamos sequer com os pântanos que são os feminismos sensacionalistas. Ninguém estava tão xposed.  

Entretanto chegámos. 

Sem acordar do transe eufórico, paguei a corrida, calculei mentalmente os suplementos e dei mais uma gorjeta ao motorista, que me disse, quando eu ia a sair do carro, muito dialéctico:

– Menina, o banco era o BANCO PARA ARRIBA!

– Ah! Já sei! 

Sorri e segui. Não sabia nada. Pelo menos naquele momento. Só se me fez luz depois. E ri muito.

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