OS MEUS INIMIGOS por Isabel Moreira

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Se todas as leis que andam a ser faladas há muito já estivessem aprovadas, o feminismo continuaria a fazer sentido. Sou uma filha da quota, apesar do princípio da igualdade estar inscrito na CRP desde 1976, e sou-o sem menoridade, porque sei que as quotas existem para impedir que as mulheres não sejam discriminadas apesar da sua competência. Mas ainda há quotas e há um duplo padrão de avaliação das mulheres e dos homens na política. As primeiras, que representam 9,2% em todos os Estados Árabes e 42,1% em toda a Europa, são escrutinadas com muito mais violência. Um deslize num homem é um erro colossal numa mulher; um murro na mesa é assertividade se dado por um homem e histeria se dado por uma mulher. E por aí fora. Uma mulher na política esforça-se muito mais do que um homem para ser uma escolha a ouvir e para se fazer ouvir.

Ora, o Parlamento é reflexo da sociedade e não por acaso as mulheres não se chegam à frente, mesmo quando, em tese, têm condições para isso. As mulheres sabem que o eleitorado aguarda um fato cinzento e uma esposa e não uma um vestido e um marido, um companheiro, ninguém, para já não falar – e isso vale para ambos os géneros – de uma relação homossexual assumida.

O meu primeiro inimigo deste estado de coisas é o grupo de mulheres que perpetua a cultura patriarcal com vista a passar bem na escadaria da carreira. É a mulher que forçadamente adere ao modelo da fémea suave, quase pedindo licença para falar, sempre pronta a fazer reparos às mulheres (só às mulheres, é sempre assim) que são duras na dialética. Este grupo de mulheres prostitui a condição feminina, agrada ao macho ibérico não desafiando a condição de menoridade que outras e outros suam para ultrapassar.

O meu segundo inimigo é a direita liberal tão pululante nos últimos tempos. Lá dentro encontramos mulheres que se dizem feministas porque são contra a violência doméstica – quem não é? – porque fazem campanhas episódicas e porque querem mulheres nos altos cargos das administrações de empresas. Isto não é feminismo, é folclore.

Porque a luta feminista passou e passa por compreender que a desgraça das mulheres chama-se pobreza, falta de acesso à educação, relações laborais precárias, ausência de direitos sexuais e reprodutivos. Estas feministas de direita fazem assim umas coisas ao mesmo tempo que flexibilizam à bruta a lei laboral, esmagam os apoios sociais, diminuem as creches, recusam a educação cívica e sexual obrigatória, combatem a IVG, combatem a PMA para todas as mulheres, apostam em políticas de baixos salários, tudo apostas que têm nas mulheres as suas principais vítimas.

O meu terceiro inimigo é a Religião. O que a Religião fez e continua a fazer filosoficamente e na prática à condição das mulheres e, de resto, aos gays e às lésbicas, é a antítese do humanismo.

Felizmente as luzes não celestiais andam mais com as mulheres e com os homens que lutam pelo que referi mais acima.