O simpático rosto do assédio

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Ela assoa-se
desenfreadamente. Nariz vermelho, dorido e assado. Volta a guardar o lenço de
papel ensopado no bolso das calças enquanto a última cliente enfia o alho
francês no saco. 
Funga uma vez mais, entupida, e inicia a rotina. 4 iogurtes e um saco
de pão. Ele, a caspa a tombar-lhe, em flocos, no kispo surrado. O cabelo em desalinho no que lhe sobra nos
lados da cabeça. Unhas mais compridas do que o esperado. Calças de bombazina
castanhas de bainha por fazer e a sobrar-lhe nos sapatos tão empoeirados quanto
os ombros do kispo
Ele sorri-lhe. Fixa-a insistentemente enquanto a ouve fungar. 
– Então? Está constipada?
– Parece que sim. 
– Então, não posso estar perto de si, não é?
– Pois, é melhor. 
– Mas não se está a aguentar?
– Estou… mas pode ser alergia. 
– Aos pólenes. É aos pólenes, não é? Com a primavera…
– É capaz. 
– Sabe o que é que faz bem? Um banhinho quente. 
Ela já não lhe responde. Nunca o olha. Responde mecanicamente com a rapidez com
que passa o pão e o iogurte. Ignora o quão próximo ficou aquele homem,
idade para ser seu pai, colado à lateral da caixa, olhos fixados nela a sugerir-lhe
um banhinho quente. 
– São 4,95.
– Hã? Um banhinho quente, não é? Fazia-lhe bem. 
Entrega a nota de cinco e só tem o troco de resposta. 
Foi-se, sem troco, depois de lhe dizer “Merci”. Olhou-me antes de partir porque
nos meus olhos estava a convicção escrita de quem lhe leu a decadência. 
Baixou os olhos e foi-se, escondendo a erecção envergonhada, curvado,
de kispo “encaspado” a
enrolhar-lhe o tronco.

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