O SILÊNCIO

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Era um dia calmo, tão diferente da maioria dos seus dias. Havia um silêncio maior. Na verdade nem era um verdadeiro silêncio. O som da máquina de secar era audível e até irritante, mas não o suficiente para preencher o vazio. Já tinha ligado o computador, escrito dois emails, lido mais uns quantos e tentado preparar a tal aula que tinha que dar no dia seguinte. Mas não era uma boa hora para refletir sobre o uso do simple present  e do present  continuous. Aquela sucessão de exemplos, sempre os mesmos, sempre o John a fazer alguma coisa ou então a Mary. Na verdade não diferia muito do português. Já perdera a conta ao número de vezes em que, no quadro negro, escreveu frases começadas por “O João…” ou “A Maria…”. Parece que é universal a tentação dos professores de fazerem uso dos nomes mais comuns e simples das suas línguas. E sempre que o fazia, perguntava-se quais seriam os nomes mais usados em países como a China ou o Afeganistão ou a Islândia. Sabendo que os nomes não se traduzem, ainda assim há uma espécie de correspondência entre uns e outros, entre alguns pelo menos. Será que, feitas as contas, todos os professores por esse mundo fora chamavam pelo João e pela Maria quando se viam obrigados a criar exemplos ilustrativos do que queriam ensinar? Provavelmente sim. Mas aquele não era o dia. Nem o Jonh, nem a Mary pareciam trazer a inspiração necessária para explicar o tópico. Havia aquele silêncio que impedia o bom funcionamento cerebral. Um silêncio tão grande que se tornava audível e impedia que o cérebro se escutasse a si mesmo. Que disseste? Perguntaria o cérebro logo após formar a frase. E o nome do Jonh ou do João teria sido usado em vão. Não havia já o registo do que ele teria andado a fazer. Talvez tivesse comido uma maçã? Ele é um rapaz muito saudável. Ou talvez tivesse telefonado à Maria? Estão sempre em contacto estes dois. Mas fosse o que fosse, já não fazia parte da memória. O silêncio impunha-se, sempre entrecortado pelo brum-brum constante da máquina de secar e pelo clic-clic aqui e ali provocado pelos fechos e botões contra o tambor de metal. Que vontade de se levantar da cadeira e desligar aquela máquina infernal que pouco mais fazia do que barulho. Mas não podia. Aquela roupa ali enrolada, numa dança de horas, sempre trocando de par, sempre em novos contactos e sempre a produzir uma música que ela dispensava, fazia falta seca. Para quê? Para vestir quem não estava presente naquele dia. Quem tinha saído e deixado para trás um silêncio exagerado.

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