O que realmente se passa numa casa onde existe violência doméstica

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Por ser uma questão que conheço mais de perto do que gostaria, há muito que
queria escrever sobre ela. Nem sempre é fácil, não por receio de consequências,
mas por ser um problema difícil de abordar e explicar a quem está do outro
lado. A dificuldade começa na própria definição de violência doméstica e nas
suas etiologias – sim, existem várias razões para acontecer e não apenas as que
vêm nas manchetes televisivas ou na boca dos populares. Standarizar todos os
casos como produto de álcool, machismo, drogas, personalidades agressivas é
francamente redutor. Numa época em que tanto falamos em saúde mental,
deveríamos focar-nos nesta, igualmente.

Numa casa onde existe violência
doméstica, não existe um agressor e uma vítima. Existe um casal, uma família,
que vive num pingue-pongue constante entre o estar tudo bem e o apocalipse.
Ninguém entende muito bem porquê. Ninguém sabe o que se passa. Ninguém sabe
como acabar com aquilo. É um estado de confusão profunda e asfixiante, enquanto
se deseja que um dia o tormento acabe. Uma fragilidade emocional devastadora. E
qualquer manifestação ou promessa de que as coisas vão mudar traz de volta a
esperança.

Mas a verdade é que nada muda. E
as soluções apresentadas pela restante família, pela polícia e pelas
associações não dão resposta ao problema: porque ninguém quer ver o/a cônjuge,
o/a namorado/a, o/a pai/mãe em tribunal, na prisão. Porque esse cenário
continua a não resolver o problema. Pior do que isso, culmina muitas vezes na
morte dos que ficaram.

Para conseguirmos uma verdadeira
resposta ao problema, temos de analisar caso a caso e dar uma solução
individualizada. Acima de tudo, perguntar “porquê?”, o que leva alguém a ter
este tipo de atitudes, procurar, investigar a fundo e descobrir a resposta.
Como médica e humanista, não acredito em “pessoas boas e más” – todos temos os
nossos problemas, medos, traumas e inseguranças, todos merecemos uma vida feliz
e livre desses demónios.

E se o problema estiver
relacionado com etiologia psicológica ou psiquiátrica, é possível intervir e
tratar a pessoa com dignidade, para que ela fique bem e equilibrada. Apostar em
rastreios e investir na saúde mental de forma a evitar tragédias antes destas
começarem. Não vou ser ingénua e dizer que isto salvará os laços entre
casais/famílias, mas permitirá que cada um siga o seu caminho sem terminar em
manchetes televisivas ou estatísticas de óbitos.

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