O MEU MARIDO AJUDA-ME EM CASA!

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Há uns anos entrevistei várias mulheres no âmbito de um projeto de investigação sobre modalidades de conciliação da vida profissional com a vida privada. Do guião fazia parte a seguinte pergunta: “O seu marido ajuda-a em casa?”. Ainda hoje recordo uma resposta que achei genial: “Ajuda-me em casa!? Não! Em minha casa existe partilha. Ajudava-me se me lavasse os dentes ou se me vestisse. A casa é dos dois. As tarefas são dos dois!”

Trata-se realmente de uma expressão comum e que pressupõe, neste caso, que a tarefa de cuidar do lar é atribuída a um dos elementos do casal e que o outro generosamente coopera.

Partilhar não significa identificar uma ou duas atividades e nomear a outra pessoa responsável. Não se trata de dizer “tu fazes as compras e cozinhas” e “eu lavo, estendo, dobro e arrumo a roupa, ponho a loiça na máquina, varro, aspiro e lavo o chão, ponho e levanto a mesa, faço a cama, limpo o pó a todas as divisões, sacudo as carpetes, lavo janelas e paredes, limpo os vidros, limpo o frigorífico e o fogão, troco as toalhas de banho e a roupa de cama, recolho os objetos espalhados pela casa, organizo o sótão, a dispensa, a roupa para doar, rego as plantas…” Partilhar é sentir o lar como um projeto do casal que deve ser gerido e cuidado com vista ao bem-estar e ao conforto da família.

A negociação da distribuição das responsabilidades domésticas é uma das muitas dinâmicas que deve ser incluída na rotina do casal e que deverá contrariar espaços desiguais em desfavor de um dos elementos. Como diz Caetano Veloso “quando a gente gosta é claro que a gente cuida” um pensamento que deve contrariar a conveniência, a preguiça ou até mesmo o egoísmo. Os indicadores estatísticos demonstram que, ainda hoje, muitos homens se escudam nos papéis sociais tradicionalmente atribuídos ao género. Todavia, também muitas mulheres cumprem esse papel, encarando a esfera privada como um domínio que é delas ou como um “fardo” difícil de romper.

Não irei aqui refletir sobre os fatores que estão na base desta questão. Aliás, seria difícil fazê-lo sem abordar contributos empíricos que desenvolvem e ilustram este tema. Parece um assunto simples, mas que está totalmente associado à divisão sexual do trabalho, tendo implicações diretas na gestão da conciliação e nas carreiras profissionais de homens e de mulheres. Não poderemos ainda esquecer que ao tempo necessário para a realização das tarefas domésticas acrescem as restantes responsabilidades familiares, sobretudo, os cuidados com crianças e adultos e, ainda, o conjunto de horas semanais dedicadas ao trabalho pago.

Certamente será mais fácil (e justo) se todas as pessoas estiverem envolvidas e comprometidas. Deste modo, não considero que a partilha seja uma questão de sorte, porque estes homens são especiais e diferenciadores mas, pelo contrário, considero que os casais que não beneficiam dela, esses sim, têm azar! Com a partilha evitam-se conflitos e ganha-se mais tempo para a relação e para a família. Deve ser encarada como algo necessário e que simplesmente tem que ser feita!