O #MeToo é só metade da história

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Praticamente sem excepção, todas nós temos histórias para contar. O #MeToo não é novidade alguma para qualquer mulher adulta. O mundo que verdadeiramente ficou chocado com a onda de denúncias foi o mundo masculino, o mundo do poder. Mas será que ficou mesmo abalado? Ou só com medo de perder parte do seu privilégio (a começar pelo privilégio de poder ignorar o problema)? Pelo que pude constatar ao longo deste ano, a maioria das reacções do mundo masculino podem dividir-se em dois grandes grupos: o dos que negam o impacto do fenómeno de violência generalizada para com as mulheres e o dos que alegam absoluta inocência.

Os negacionistas estão escandalizados e/ou furiosos com as denúncias e minimizam-nas sempre que podem: «também não é preciso exagerar», «um piropo não é uma violação», «muitas delas inventam», «agora não se pode começar a acusar por tudo e por nada», «se não estava a gostar, porque é que não falou mais cedo?», «até parece que nunca viu uma pila». A ignorância e a malevolência são de tal grau que nem sei por onde começar.

Os outros, os inocentistas talvez consigam ser piores, de certo modo. São numerosos, convincentes e menos declarados do que os primeiros. Estes mostram-se surpreendidos a cada relevação, demarcam-se total e imediatamente daquelas práticas e têm pena das vítimas («nunca pensei», «imagina», «coitada»). E a seguir a vida continua como sempre. Já manifestaram a reacção que lhes permite ficar de consciência tranquila e, portanto, passemos ao próximo motivo de indignação. São como as crianças que dizem à mãe «já está» depois de terem lavado as mãos, só que a casa de banho fica toda patanhada, gastaram meio frasco de sabonete e há espuma no espelho. Podem ter lavado as mãos sozinhos (quais Pilatos), mas alguém vai ter de lavar a casa de banho por eles.

Neste grande momento de despertar, o despertar ainda é sobretudo feminino e das minorias. Claro que há bastantes homens a acordar para o problema e com espinha dorsal suficiente para se mostrarem solidários e quererem mudar o estado das coisas. Mas ainda estão muito longe de representar o todo. A generalidade ainda não pôs a mão na consciência. Não quer abdicar desse poder, finge que não o tem. Até agora, o #MeToo quase só tem vozes femininas/de minorias. O problema é que essa é apenas metade da história. Ainda só ouvimos as vítimas, os culpados e os cúmplices negam e/ou escondem-se.

Os negacionistas negam que haja vítimas (e, portanto, não há culpados), para os inocentistas há vítimas (e, portanto, não há culpados). O papel dos homens mal existe. Como se uma mulher fosse violada/assediada/agredida sozinha. Se só olharmos para as vítimas, não precisamos de pensar nos criminosos nem nos cúmplices. Façam delas a estrela, a musa trágica, a meretriz mentirosa, e temos nelas a manobra de diversão perfeita. Só que as mulheres não são as «vítimas» dos negacionistas nem as Grandes Vítimas dos inocentistas. As vítimas são o que são, em toda a sua complexidade.

Agora falta contar o outro lado da história. Há aqui um enorme vazio para o qual não consigo deixar de olhar. Já tivemos o reconhecimento de que existe um problema. Falta reconhecer a responsabilidade. É por esse verdadeiro abalo que espero.

Um Weinstein cair (vamos ver), um Louis C.K. em desgraça (já começa a voltar), um Kevin Spacey exilado (mas activo), um Charlie Rose afastado (até quando?) não chega, oh, não chega mesmo. Devem pagar pelas suas agressões, sim. E isso é simbólico. Mas que não nos fiquemos pelo simbolismo. Do que precisamos é de uma vaga de #MeToos vinda da sociedade em geral e sobretudo dos homens: «eu também sou cúmplice», «eu fechei os olhos», «eu duvidei do relato», «eu forcei o sexo», «eu ainda acho que as mulheres me devem sexo», «eu eduquei mal».

Sim, nem todos terão capacidade para o fazer – por isso é que se fazem denúncias –, mas há homens que abriram os olhos com os acontecimentos dos últimos meses e perceberam a sua cumplicidade neste sistema. Esses poucos podem começar uma revolução. Sei de boas pessoas que nada dizem quando vêem um amigo objectificar mulheres, que dão uma palmadinha no ombro quando ouvem um desabafo sobre sexismo no local de trabalho mas que seguem com o seu dia normalmente sem pensar mais no assunto, que preferem dar o benefício da dúvida ao agressor em vez de à vítima, que avisam as filhas sobre os perigos de andar de mini-saia e nunca lhes explicam o que é o consentimento, que avisam as filhas dos perigos mas não ensinam respeito aos filhos. Onde estão esses #MeToo? É desses que agora precisamos. As mulheres já deram o primeiro passo. Talvez o mais difícil. Falta o resto. Talvez o mais importante.

É essencial que as vítimas vejam o seu papel reconhecido, mas enquanto os agressores e os cúmplices não olharem para o que fizeram e fazem, continuará tudo na mesma. As mulheres e as minorias, por muito unidos que estejam, não conseguem resolver tudo. Precisamos dos homens, especialmente os cis, heterossexuais e brancos, para travar esta loucura colectiva. Os próprios têm de ganhar coragem. Ninguém vos morde. Assumam o papel que têm nisto – sem se fazerem de vítimas e sem vaidade no mea culpa – e as coisas mudam. Para melhor. Para vocês e para todos nós.

Ouçam a vossa amiga, perguntem à vossa irmã, conversem com a vossa filha e o vosso filho, repreendam o vosso amigo alarve, juntem-se à próxima manifestação, não achem que sabem tudo e esclareçam as vossas dúvidas, informem-se sobre as estatísticas (um estudo realizado pela UMAR Coimbra sobre a violência sexual em contexto académico revela que 94,1% das mulheres inquiridas já foram alvo de assédio sexual, 21,7% de coerção sexual e 12,3% reportaram já terem sido violadas), partilhem conteúdos importantes nas redes sociais, ganhem consciência da vossa vantagem, importem-se com a desigualdade salarial, ofereçam ajuda quando alguém parece fragilizado e pode precisar dela. O comportamento dos homens é o problema. A sua mudança de comportamento é a solução. Está na hora. Estamos à espera.

De há uns tempos para cá que sinto que o feminismo já fez boa parte do seu trabalho de libertação da mulher (um trabalho que deverá continuar a fazer porque nunca acaba) e que agora quem precisa urgentemente de ser libertado é o homem. De si próprio, das expectativas que lhe são impostas, da ignorância, da agressividade e da cobardia. Porque o #MeToo não existiria sem um #YouToo. O #MeToo é o sintoma, o #YouToo é o problema. É o #YouToo que está em causa. Sempre foi.