O MENINO-HOMEM QUE ME SALVOU A VIDA

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Foram 44 anos de uma referência masculina brilhante. O meu avô. Homem alto, magro e bonito. Por dentro e por fora. Educado, jamais lhe ouvi uma incorreção verbal, psicológica, emocional. Pacato, doce, meigo, rigoroso, calmo e alegre. Original, sem medo do que os outros pensavam dele, porém, um Homem doce e profundamente respeitador da figura feminina. Detestava pessoas oportunistas, falsas, mascaradas, gananciosas, detestava competição e machismo, violência, ignorância, covardia e desrespeito. Considerava que essas eram as características típicas duma dada categoria social que avançava veloz na sociedade portuguesa, em especial provinda de pais rurais migrados para a cidade.

Ele amava livros, música, crianças, artes, ruralidade e decência. Procurava em tudo o conhecimento a fundo, a sabedoria, e a humildade para se saber dizer: “Não sei, mas vou aprender com os melhores.”

Depois chegaram os homens apressados, ansiosos, desequilibrados, competitivos, educados por pais ausentes e sem noções de autoridade, e por mães que os ampararam e justificaram em tudo a sua vitimização facilitista. Homens que não processam pensamento emotivo. Homens que apenas conhecem a “injustiça” social, a inveja e o mal estar diário perante a génese aglutinadora da Mulher-Mãe, aquela Mulher-Mãe que se permite Amar, Dar, Receber, ser Autoridade e Riso, ser Inteira, Responsável, Autêntica, ser Intelecto e Profundidade, sem ter de provar nada a ninguém, sem ansias, sem pressa.

E gerei um menino.

E adoeci. Foi natural, a gravidez foi tramada. A insegurança em que tive de viver a minha gravidez foi imensa.

Porém fui brava e resistente. E o bebé nasceu e desenvolveu-se inteiro, pleno, sábio e doce, como poucos.

E fui mal tratada. Por aquele que devia proteger-me e incentivar a minha recuperação plena e a minha força na dor física dum problema renal. Pelo contrário, motivou o abuso de outros machos-alfa (supostamente), e mulheres presas à culpa, à agitação, ao machismo temeroso, eticamente comprometido, ansiosamente conservado. E a criatura, muitíssimo mal rodeada, desenvolveu somente um jeito de perturbação de quem não se quer conhecer a fundo, um medo veloz de existir e da responsabilidade que obriga a ser-se competente, em vez de apenas ser-se o macho triste e vazio que sempre foi.

E expulsei-o de casa. Ao contrário daquilo que o país em que vivo exige das mulheres: que sejam elas a sair das suas casas com as crianças…

Foram apenas cinco anos de vida em comum, seis agressões e dívidas graves constantes, eu doente, com um menino adorável a crescer. Ele, empregado e muitíssimo bem pago, pelo meu pai. Uma experiência profissional em curriculum vitae que jamais obteria se não fosse a ligação a mim, e da qual faz uso público ainda hoje.

Porque não soube, não quis, ser decente e grato, passou à agressão física depois da psicológica, e perante agressões e incompetências várias, de ordem familiar e profissional, foi despedido.

E ia morrendo, por fim, depois das primeiras agressões, às mãos dele. Estrangulada. No chão da sala.

Na presença do menino adorável, que gritou e correu à escada em busca de socorro. Que me passou uma tampa com a qual me consegui defender e salvar.

O menino-Homem que me salvou a vida. Tinha então 5 anos.

E um sistema de defesa da vítima no nosso país, todo ele errado e falível. E uma criança em vias de cair em todo este sistema, onde o pai violento mente, onde reverte a acusação para a Mulher-Mãe, família dela, estado de saúde mental que promoveu, um sistema judicial e social em que a advocacia sedenta se intromete em busca de facilitismos, de argumentos culturalmente condicionados, e acima de tudo de facturação… Em que o registo sócio-familiar é facilitista, machista, ignorante, e enfim, toda a moral e ética está tendenciosamente comprometida por séculos de patriarcado, ideias pré-concebidas e pobreza de espírito, erros educativos que condicionam a avaliação de todas as situações e de todos os envolvidos, prisioneiros fáceis, numa suposta liberdade irresponsável onde se libertam erradamente de tudo o que faça crescer, menos de si próprios, e da sua errada educação e formatação mental.

Long story short, volvidos 5 duros anos de triste jurisprudência, de erros graves institucionais, de isolamento e sofrimento atroz, de resistência e de menor gasto energético em nome da saúde, de stress pós-traumático, de diversas consequências físicas óbvias e previsíveis, de busca por apoio dos melhores, de sobrevivência pura e dura, assim como de proteção e educação correta daquele que foi a maior prioridade da minha vida, o menor, depois de cinco duros anos, dizia eu, e ainda não satisfeito com os estragos anteriores, surge poderosa a criatura com a continuidade do completo desrespeito, desprezo e diminuição da minha pessoa, da figura feminina forte e maternal, que naquele triste ser incomodava, e que portanto, deveria levar com novo golpe, agora descaradamente exibicionista:

Violência financeira e jurídica.

Como se todo este perfil doentio não fosse inteiramente reconhecido e descrito, por inúmeros estudiosos internacionais, e felizmente por uma escola recente de novos académicos e cidadãos nacionais…

Mulheres e homens, feministas SIM, que lutaram MUITO nos últimos dez anos, dia após dia, reunião após reunião, caso após caso, processo após processo, lei após lei, por uma sociedade em que se veja por completo a eliminação da estupidez, irresponsabilidade e ignorância do machismo, no fundo e em resumo, das educações precárias de futuros homens e mulheres.

A promoção rigorosa e afirmativa de valores humanistas, de empatias, de consciência da emotividade, de eliminação da emotividade negativa e doentia, da consciência psíquica, de atitudes, que distinguem para melhor, o trigo do joio, nesta sociedade de homens e mulheres machistas.

E o resultado feliz vai sendo visível. Também com esta plataforma “Capazes”.

E um menor que se dirigiu a um tribunal, sem qualquer manipulação, pelo contrário, com inteiro respeito pelo que sentiu, pelo que viu, pelo que sofreu, de forma corajosa e reconhecidamente admirável, sem qualquer apoio de adultos no local, sem qualquer receio, e que testemunhou o que teve de assistir em pequenino, desmentiu todas as declarações registadas pela Segurança Social no seu processo, todas as mentiras assustadoras e absurdas, e sustentou jurisprudência que o defendeu nos seus mais elementares direitos: o Direito a dizer Não ao que não presta, a quem lhe fez (e faz!) tanto mal e que nunca pagou por isso.

No fundo, ao meu filho eu permiti aquilo que o pai dele devia ter tido e nunca lho permitiram. A capacidade de dizer NÃO ao que não presta, à pequenez e mediocridade. Também por isso, por esse erro educativo tremendo e fundamental, e é bom que se perceba isto duma vez na nossa sociedade, se desenvolveu aquele ser humano infeliz, desgraçado, oportunista, inseguro e perturbado, completamente irresponsável e vingativo.

Por tudo isto,

O meu conceito de feminismo é o conceito educativo.

Aquele que liberta.

Aquele que educa homens e mulheres para serem inteiros por dentro, sem insegurança em existirem e dizerem não ao que é pequeno, escasso, medíocre, oportunista.

Aquele feminismo que permite aos Homens ter H grande, libertarem-se do que os limita e manipula, do que lhes permite a mediocridade e a irresponsabilidade, como se tivessem de ser eternamente seres menores, imbecis, incapazes, acelerados e gastadores de recursos, oportunistas de felicidade egocêntrica, condicionados pelo que o seu género, e mediocridade envolvente, lhes exige.

E a vida, a minha, a da minha família, filho e amigos, tornou-se, progressivamente, um exemplo.

Um exemplo de força, resistência, razão, admiração de tantos e tantas.

Saiu-me do pêlo. Saiu-lhe a ele, ao meu filho, do pêlo. Felizmente, o nosso “pêlo” registou a autoestima que poucos têm. A experiência de vencer pela razão e pelo coração.

Porque somos dignos, sempre o fomos, de viver inteiros, plenos, realizados, sem nos darmos ao que é inferior a tudo isto.

Porque é este o único formato de Amor pleno que existe.

Um Amor em que o feminismo é uma causa Universal e não um género.

Porque sabemos bem o que é e deve ser Feminismo.

Aquela causa Universal, de jovens e menos jovens, de homens e de mulheres, que vi e memorizei como referência plena do que é e deve ser a Masculinidade, que tive a sorte de ter como exemplo completo no meu querido avô, e que me enche a alma de esperança, a mim e ao meu filho, hoje com 18 belíssimos anos, que partilhou e usufruiu sempre da memória mais pura do bisavô.

Por alguma razão, quem sabe, se chamava, nos chamamos nós também, d’Assumpção Leal.

Talvez porque assumimos um dia a inteira lealdade a esta causa, para sempre.

São estas coisas que se nos registam no ADN.

São estas coisas, com Mulheres-Mães e filhos, que se cumprem, e distinguem o trigo do joio, tão necessárias nos dias de hoje na nossa sociedade…