O Medo, esse conceito democrático

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Esta não é uma crónica satírica sobre
ciência política, muito embora o título, e em definição assertiva, possa
induzir a essa leitura. Também não é um texto sobre psicologia social. É um
livre escorrer de pensamento sobre alterações de paradigma, urgência de
percepção sobre movimentos cívicos, constatação de disparidades e, sobretudo,
identificação de um factor que tem sido impulsionador da dificuldade de mudança
e até de noção de realidade global – o medo. O medo do desconhecido, do novo,
sobretudo medo do diferente. O medo que tem sido motor quer de estagnação, quer
de dificuldade, quer de confronto, no caminho que se quer o mais ”saudável” –
porque livre –  equitativo, equilibrado. O de percorrer os esteios da
igualdade, da justiça, da liberdade, da assunção de que o ser humano merece e
devia pugnar pelo conceito filosófico que mais o distingue das restantes
componentes que caracterizam o mundo – o conceito de humanismo.

Séc. XXI – o século herdeiro das
tentativas sucessivas de adequação a uma realidade tão ferozmente rápida quanto
a necessidade de assimilar e construir ao mesmo tempo. O Século tanto do avanço
tremendo nas conquistas tecnológicas, como do vazio na capacidade de trabalhar
sobre as heranças históricas, não raras vezes descontextualizadas, tanto quanto
assumidas como estanques e ocultadas da análise. Prima o excesso. O excesso de
indiferença, o excesso na insistência em tratar como natural, como inevitável,
determinados acontecimentos face à contextualização do pensamento dominante à
época. Erro número um: que “época” tem contexto, é indiscutível, mas a assunção
do erro não passa por dar ao contexto a não identificação do erro. Ou se assume
o erro e depois contextualiza-se, ou contextualizar para o diluir é votar o
mundo à estagnação e dar-lhe, de mão beijada, o “mas”. Aquele “mas” que não é fáctico,
é desviante. Note-se que nos dias que correm a utilização de “whatabouts” tem
servido o propósito de desviar a atenção de um tema, posto em cima da urgência
da mesa, para comparações que servem apenas para “mudar rapidamente de assunto”
e descansar as almas propagadoras de prioridades chamadas à tela, para
minimizar outras. Partamos deste princípio: Não há assuntos menores. Atenção
que não escrevi que todos os assuntos são maiores. Não há assuntos menores. E,
partindo daqui, classifiquemos então, com a hombridade necessária o que é de
todos ou de alguns. E surge a pergunta: Será, à partida, um tema tido como “de
alguns” menos importante que um tema que afecta a maioria? Não. Não será menos
importante. Não é menos importante a violência doméstica do que a fome, sendo
que estatisticamente a fome afecta mais gente no mundo do que a violência
doméstica. Percebem onde quero chegar? São realidades. Ponto. Negativas. Cujo
esforço de combate é meritório. Cuja tolerância à sua existência deve ser zero.
A questão principal residirá nas armas de combate. A primeira – a arma de
combate à violência doméstica – reside no plano da alteração de mentalidade e
só essa também permitirá que a aplicabilidade jurídica seja impoluta. A segunda
reside na alteração de mentalidade também, e só essa permitirá que a
distribuição e redistribuição de rendimentos seja justa e equitativa. Que a
afectação de recursos seja, de facto, uma preocupação global. Só não podemos
minimizar os assuntos, nem contextualiza-los em sentido desculpante, ao abrigo
de outras épocas e outros tempos, em que seria “normal”, por exemplo, um juiz
chamar à colação o preconceito e os códigos obsoletos, para tomar decisões.

Erro número dois: Partir do princípio
que a liberdade de expressão e a liberdade de opinião não têm limites. Têm.
Quanto mais não seja o limite do bom senso. E onde é que vem definido o bom
senso? Na prática reiterada da reflexão, da adequação e da exigência de leitura
sobre as situações, que deve ser primado de qualquer pessoa. Qualquer pessoa. A
Liberdade de expressão e a Liberdade de opinião não servem o direito de antena
para defesa de extremismos, para defesa de opiniões sem a menor noção sobre o
outro. Quando essa expressão gera exclusão é preciso repensar o que andamos cá
a fazer. É preciso perguntar, nem que seja ao espelho, em que é que o
reconhecimento de direitos a um grupo determinado, em que os princípios
Democráticos em nada são afectados, antes pelo contrários, são justamente
alargados, retira direitos a outro grupo. Não, não retira, apenas atribui e
reconhece, também, a outros. Não retira nada a ninguém. Acrescenta a outros.
Este exercício precisa de ser feito. E é muito fácil cair nas aspas do tal
“what about” porque é a ruela mais simples de percorrer quando é o medo do
desconhecido que guia as nossas opções. O medo.

Porém, não nos basta fazer
identificações estanques. Tem de haver pensamento critico, tem que haver um
exercício de pergunta resposta, temos que saber sair de nós e parar para
avaliar o que está à nossa volta. Mas fazer uma avaliação construtiva, aquela
que nos permita identificar, escolher se queremos saber ou não, e optar. Se não
queremos saber, é um direito, é uma liberdade, mas, então, não nos ponhamos no
papel de retirar a liberdade a outrem ao fazer juízos e emitir opiniões que
mais não são do que o mero exercício de despejar palavras. Aparentemente
inconsequentes. Aparentemente. Na realidade é um comportamento que faz eco: Não
querer saber. Igualmente nefasto é aquele que deriva da falta de análise e
desemboca na emoção imediata. Só em 2019 há dezenas e dezenas de exemplos,
multiplicados em estatísticas, distribuídos por assuntos dispares, mas todos
encontrados no mesmo preceito: caminhamos, mesmo, para a tal total ausência de
noção sobre o outro. E descansadamente sentados no sofá dessa ausência caímos
vertiginosamente na assimilação rápida da opinião vertida na hora, sem o menor
exercício de perceber o todo, antes de tomar como inquestionável a parte. E por
este caminho é drástica a leveza com que nem tentamos ter uma noção mais
abrangente da realidade que apenas nos tem merecido a reacção. Reacção por
medo. Pensem nisto. É um convite que vos faço. Porque, no próximo texto, vou
falar-vos de estatísticas. Essas sim, medonhas.

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