O lugar de uma mulher e a liberdade de expressão

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As semelhanças entre Joana Bento Rodrigues e Serena Joy, a personagem
fictícia de “The Handmaid’s Tale”, são gritantes a ponto de nos fazer pensar
que não estamos assim tão distantes da sociedade distópica descrita no livro,
em que as mulheres estão confinadas a ser cálices de sémen para gerar filhos. Porém,
tal como Serena, Joana esquece-se que, na sociedade descrita por si, também ela
perderia o emprego e a sua opinião nem sequer seria publicada. O número
“preocupante” de mulheres no ensino superior e em profissões que outrora eram
destinadas ao sexo masculino, como a advocacia e a medicina, só se tornou
possível devido ao feminismo do qual ela tanto desdenha. Não havia necessidade
de proclamar o seu anti-feminismo, pois essa ideia transborda ao longo de todo
o texto.

Talvez o que assuste mais seja a formação académica da autora – apesar
dos estudos e de ser médica, feitos que certamente terá conquistado por mérito,
Joana defende que as mulheres não têm outro potencial além do matrimonial,
maternal e da actividade doméstica.

A crónica de Joana sofre de um transtorno dissociativo de personalidade,
pois deambula entre a defesa da igualdade retributiva do homem e da mulher – a
qual, como cedo percebemos, serve apenas como framing device para criticar o movimento feminista – e a defesa do
oposto: a mulher deve ficar em casa, a cuidar dos filhos, a viver do rendimento
do marido que a sustenta, e nem sequer se importa de ganhar menos que o cônjuge
(pelo contrário!), pois é normal que este dedique mais tempo ao trabalho, tendo
mais “sucesso laboral” do que a mulher, até porque não pode ter filhos por
impossibilidade biológica. Não se compreende, afinal, o argumento de que o
feminismo deveria lutar pelos direitos da mulher no contexto laboral – na
verdade, houve progressos legislativos relativamente ao assédio sexual no local
de trabalho e já entrou em vigor a nova lei sobre a igualdade remuneratória
entre homens e mulheres –, visto que a Joana não está realmente preocupada com
essa desigualdade.

O perpetuamento de estereótipos relativos às feministas é o verdadeiro
cerne do texto, que as acusando de “não precisarem de relações estáveis”, de
“não querer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades
profissionais” e que “fogem da elegância no vestir e no estar”, escolhendo
antes objectificar-se, sendo “fonte de desejo em relações casuais,
rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e materno”. Em resumo: as
feministas querem sexo fácil e destruir a Família, esse pilar que é tão
importante para a cronista. Demonstra, assim, uma total ignorância sobre o que
o Feminismo defende: a liberdade, a igualdade e a dignidade da mulher. Essa
liberdade pode ser financeira, individual e sexual, o que implica que não
necessitemos de depender financeiramente de um homem, que o nosso corpo não
seja injuriado e maltratado e que tenhamos a liberdade de escolher os nossos
parceiros sexuais – seja ele estável ou casual, sejam vários ou nenhum, quando
e onde quisermos. Porque essa escolha é individual e não cabe a ninguém julgar
uma mulher pelos relacionamentos que escolhe para a sua vida. Da mesma forma, o
feminismo nunca quis acabar com a família, sendo comum que muitas feministas
escolham casar e ter filhos. Podem até optar por prosseguir as suas carreiras
ou optar por ser donas de casa e ambas estas escolhas são perfeitamente válidas
– o que é essencial é que nenhuma das duas diga à outra que a sua escolha é
errada. E é curioso que se acuse as feministas de evitarem deformar o corpo,
quando sempre lutámos contra uma ideia preconcebida do corpo feminino,
defendendo o direito a um corpo que envelheça naturalmente, o corpo com
estrias, com verrugas, com celulite, e que não deve ser criticado por isso.
Infelizmente, é legítimo que uma mulher tema perder o emprego devido à
gravidez, uma vez que é prática de muitas entidades patronais não colaborar com
uma mulher que opte por engravidar.

De igual forma, não é verdade que as feministas não sejam elegantes “no
vestir e no estar”. Isto corresponde a mais um estereótipo de que as feministas
não são femininas, não se depilam nem se arranjam para “afugentar” o
patriarcado, como se muitas de nós não gostássemos de nos expressar através da
maquilhagem e da moda. Simplesmente nos opomos aos padrões de beleza impostos
pela sociedade, que se caracterizam pela preferência da mulher magra, loura e
de olhos azuis e sem um único pêlo no corpo.

Note-se que o problema não é Joana expressar a sua opinião e defender
que o seu potencial é somente maternal e matrimonial – o problema é generalizar
essa sua visão do que a mulher deve ser, ou seja, falar por todas nós. Ao
contrário do que outros cronistas querem fazer parecer, descartando o problema,
nós não criticamos a escolha de uma mulher que queira casar e ter filhos.
Criticamos apenas a mentalidade de uma mulher que quer impor esse seu ideal
feminino às demais, num texto com laivos de revista dos anos 50. Pena que a
cronista conheça tão pouco o trabalho feminista a ponto de escrever que a
mulher “dedica menos tempo que o homem às causas partidárias e ao estudo da
História e da actualidade, enquanto conhecimento necessário para defender e
representar uma Nação”. Não só isso não é verdade, pois inúmeras figuras
históricas se destacaram nesse estudo e na luta pela visibilidade feminina (que
Joana tenta agora apagar), como essa dedicação só aumenta ao longo dos anos –
tal como escrevia Virginia Woolf, a mulher só não estudava tanto como o homem
porque não lhe era dada essa possibilidade e as que o faziam só o conseguiam
devido à estabilidade financeira da família.

A ideia fundamental é que a mulher pode escolher o lugar que quiser: ser
“doce e cândida”, ter sete filhos e dedicar-se às tarefas domésticas ou dedicar-se
exclusivamente à carreira, ter sexo fácil e pavonear-se nas slutwalks (paradas onde “expõe o corpo
de forma grosseira” enquanto grita coisas igualmente grosseiras como “o meu
corpo, as minhas regras” e “Justiça machista não é Justiça”). A propósito de
Justiça, é importante não esquecer que, enquanto discutimos as palavras da
cronista, Neto de Moura se dedica à nobre causa de processar todos os que o
acusaram de misoginia pelos acórdãos em que justifica a violência doméstica se
a vítima for adúltera e, mais recentemente, por retirar a pulseira electrónica
a um agressor, colocando a vítima em perigo. Neste momento, comparecer às
paradas feministas não pode ser visto como uma diversão que nos reduz à
promiscuidade, mas sim uma necessidade urgente.

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